(Texto originalmente publicado na coluna Diário Cultural, caderno Você do Diário do Pará, edição do dia 06/04/2015)
As reações do homem diante de situações extremas
movem a maioria dos conflitos nas narrativas universais. Não por acaso, a
segunda parte da quinta temporada de The Walking Dead melhorou bastante, desde
o fim do ano, ao levar os personagens até o limite da tolerância na convivência
em sociedade, diante de um ambiente de aparente calma, mas que esconde perigos
piores que os zumbis. Por outro lado, um dos melhores filmes de 2014, Relatos
Selvagens, aborda questões parecidas, porém com uma ótica diferente.
Com estrutura episódica e apelando para roteiros
com pessoas em condições adversas, o longa argentino de Dámian Szifron passeia
pelo humor inteligente, nervoso e tragicômico em seis histórias curtas. Os
créditos de abertura são bem curiosos e trazem diferentes tipos de animais,
deixando bem claro a intenção do título do filme: enfocar no homem usando seus
instintos primitivos contra o outro quando se sente ameaçado ou
humilhado. A trilha sonora do premiado Gustavo Santaolalla é espetacular,
com toques de clássicos Pop. Eu fiquei com a trilha principal na cabeça por
horas.
Cada pequena narrativa possui estrutura de filmagem
e cenários específicos. O prólogo, passado dentro de um avião, funciona
perfeitamente como uma isca para o público. Começando com um diálogo
aparentemente banal, o texto começa a desenrolar suas intenções a partir de uma
série de coincidências que já demonstram que algo está muito errado. O segundo
é o “menos bom” de todos, sobre a garçonete que é obrigada a atender o homem
que destruiu sua família e se vê em um dilema moral.
Já o terceiro é completamente hipnotizante. Um
xingamento na autoestrada de terra desencadeia uma trágica caçada de gato e
rato. Um road movie tenso, com tons debochados e um final destruidor. A quarta
intervenção é a mais famosa, muito por causa da atuação do astro Ricardo Darín,
que mais uma vez dá show como um pai de família fora de controle diante da
burocracia e da indiferença no serviço público. É o episódio com o final mais
emblemático e irônico ao extremo.
O quinto tomo estabelece uma relação corrupta sob o
poder do dinheiro na proteção da família e da falta de ética de profissionais
quando o assunto é o ganho capitalista. É um pedaço mais calmo da película, mas
os diálogos e o final te deixam refletindo sobre mesmo após as luzes se
acenderem na sala de cinema. O último fecha a produção com chave de ouro, ao
contar a reação insana de uma noiva à descoberta de uma traição durante a
cerimônia luxuosa de casamento.
Enfim, ao fragmentar seu primeiro grande trabalho
no cinema, Szifron passeia, com fluidez e maestria, pela obra de Sam Peckimpah,
faz paradas programadas em Quentin Tarantino e termina estacionado em Nelson
Rodrigues. Simplesmente imperdível.
Para quem
perdeu a primeira semana de exibição, ainda há a chance de assistir o filme no
cine Líbero Luxardo, do Centur, nos dias 08 a 11 deste mês (quarta a
sábado) às 19h e no domingo (12h), em sessões às 17h e 19h30. Os
ingressos custam R$ 8,00, com entrada franca para estudantes.

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