Você sabe que Os 8 Odiados é um filme de Quentin
Tarantino quando o cineasta consegue colocar no mesmo “balaio” visual
referências a filmes como Meu Ódio Será Tua Herança e O Enigma do Outro Mundo, além
de uma obra clássica da literatura como O Assassinato no Expresso Oriente. Ou
seja, a película tem elementos de westerns, terror e suspense, ao mesmo tempo em
que não é nenhum dos 3 gêneros. Parece confuso? A intenção, claramente, é essa.
O ponto de partida é a
história de 9 desconhecidos (isso mesmo, são 9 e não 8 personagens. Trata-se de
mais uma ironia tarantinesca, já no título da obra: é o seu 8º filme e remete
também a 8 ½, de Federico Fellini) que ficam presos em uma cabana enquanto
aguardam a passagem de uma nevasca. A tensão é crescente e as intenções são
desnudadas aos poucos. Esse “nada é o que parece” é reforçado pela atmosfera
pesada e melancólica da trilha do mestre Ennio Morricone e pelo design de
produção fantástico, que transforma o, quase, único cenário do filme em uma
prisão natural ora claustrofóbica, ora estranhamente acolhedora.
Os
8 Odiados também é puro teatro, perfeito para que os atores
brilhem. Cada um a seu tempo. Por outro lado, há Samuel L. Jackson. É dele a
maior atenção da câmera, sempre bem posicionada, de Tarantino. Um personagem
bem blaxplotation (produções negras da década de 1970) perdido em um faroeste
macarrônico. Ele também é quem carrega o Mcguffin (elemento simbólico que move
a narrativa, como a mala dourada de Pulp Fiction) da vez. A suposta carta de
Abrahan Lincoln ao personagem Major Marquis
não é aleatória. E por estar nas mãos de um negro causa estranhamento e
conflitos, além de ter um papel determinantemente simbólico no ato final do
filme.
A “cabana do Terror” é
o microcosmo perfeito da democracia americana. Aqui temos, de novo, uma
representação da genialidade da película. Ao juntar vários extratos sociais distribuídos
entre personagens diferentes, Quentin Tarantino cria um pequeno embate entre a política
representativa e aquela que privilegia determinados grupos sociais. Mexicanos,
negros, mulheres, brancos, racistas, europeus colonizadores. Está tudo ali. Uma aula da história americana
se você prestar atenção nas entrelinhas.
A propensão do filme ao
gore e a histeria não é por acaso. O autor atira nas referências à Don Siegel e
Sergio Leone, e também acerta em Dario Argento e Lucio Fulci. Os embates de
sangue são desenhados com uma costura narrativa impressionante. E diálogos
afiadíssimos, como de habitual. Tarantino não tem pressa em criar um clímax para
a história, se é que ele existe. E tome flashbacks, tensões não-realizadas e
variações entre closes e planos abertos. Referências sempre presentes em um autor
que não tem medo de se reinventar mantendo seu avatar no devido status quo. Ao manipular seus conceitos
de ética e violência, Tarantino é tão odiado quanto seus personagens. Mas pode
ser amado na mesma proporção, graças ao seu cinismo por trás das câmeras. E
nesse exemplar temos um diretor transformando o barulho, provocado pelos
pesados grilhões que o prendem ao seu passado no cinema, em música.

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