(Texto Originalmente publicado no Diário do Pará, coluna Diário Cultural do caderno Você, edição de 09/03/2015)
Birdman é um deboche. Um pastiche
intencional sobre a construção artística. Ou, como diria a crítica de arte do
jornal no filme, é a destruição do conceito puro que moveria a arte e sua
criação. Uma ode à perda da aura de Walter Benjamin. Ou uma elegia ao fim desta
diante da indústria cultural, vai saber.
O certo é que o novo filme de Alejandro
González Iñárritu está – bastante - interessado em deixar o espectador de
cuecas diante da tela. Pronto para se atirar do prédio e sair voando como o
Homem-Pássaro. E cria uma obra intensa. O diretor mira
em Festim Diabólico e acerta nas próprias virtudes. O único plano sequência
falseado se transmuta na passagem fluida de tempo e na mise-en-scène pelas
quais os personagens confortavelmente se distribuem. Tudo é pensado
cuidadosamente, da platéia de homens brancos e idosos prevista pelas palavras
duras da filha, Sam (Emma Stone, a um passo da atuação fora do tom) ao curativo
imitando a máscara do herói.
A
fotografia de Emmanuel Lubezki, como sempre, é magnifíca. E a trilha sonora de Antonio Sánchez praticamente é composta por batidas de bateria, que alterna a percussão entre
calma e intensa, como as batidas do coração do nosso protagonista, o ator
decadente Reggan Thomson. Um ex-astro de cinema escondido agora em um camarim
fétido de um teatro decadente.
O elenco
também é ótimo. Naomi Watts é a artista bipolar do teatro perfeita. Edward Norton
e Michael Keaton exibem facetas que cairiam direitinho nas suas próprias
personas: o primeiro tem fama de brigão e egocêntrico. O segundo viveu seu auge
até a década de 1990 pós-Bettlejuice e pré-Batman e depois teve que se contentar em ser
coadjuvante da nova versão do Se Meu Fusca Falasse.
Há também metáforas quadrinísticas a
parte. Riggan pode mover objetos com a mente ou é apenas mais uma
alegoria criada por ele para sustentar seu próprio ego?. A dúvida permeia todo
o filme e permanece até o fim. Ele levita na sua própria mente e esquece de
pagar o táxi. Ou deixa passar sua fama de louco. Ou seria louco pela fama?.
Tudo que ele não quer é morrer como Farrah Fawcett, eclipsada pelo fim – no mesmo
dia - de outro astro, aquele do Moonwalker. Birdman é cinema, é teatro, é música, é quadrinhos. É amor e poesia de Raymond
Carver. Seria a virtude da ignorância e a agonia da perfeição. Mereceu cada
estatueta dourada (apesar de Boyhood, que mora no meu coração).
Mas que
isso, é seu amigo imaginário mandando você ir à qualquer lugar para perto de
onde você deveria estar. O meu mandou eu assistir o filme de novo. Acho que vou
obedecer antes de sair voando por aí.
Quadrinhos no Pará
E falando em quadriinhos, o projeto
"Sessão Daqui", do Sesc Boulevard em parceria com a Associação
Paraense de Jovens Críticos de Cinema (APJCC), exibirá o documentário “VHQ – Uma breve
história dos quadrinhos paraenses”, de Vince Souza que, como o próprio título
informa, trata da batalha dos apaixonados pela nona arte no Estado. É um
registro inédito e imperdível da união das duas artes sequenciadas em terras
amazônicas. A exibição será no dia
18 de março às 18h, no Sesc Boulevard da avenida Castilho França. Prestigiem.
18 de março às 18h, no Sesc Boulevard da avenida Castilho França. Prestigiem.

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