(Texto originalmente publicado na coluna Diário Cultural, do caderno Você do Diário do Pará, edição de 23/03/2015)
A principal polêmica da semana na
TV brasileira foi o beijo lésbico na novela Babilônia da rede Globo,
protagonizado por duas grandes atrizes veteranas: Fernanda Montenegro e Nathália
Timberg. Foi um beijo simples, carinhoso, mas o suficiente para levantar a ira
de alguns e fazer a alegria de quem frequenta as mídias sociais e que acredita
no amor livre.
Bem, quando se trata de meio cultural, esse é um burburinho que já nasce
ultrapassado. Isso porque em 1927, o primeiro ganhador do Oscar de Melhor
Filme, Asas, trazia um beijo na boca entre os protagonistas. Era uma despedida
espiritual bela e tocante, em plena década de 1920. No Brasil, em 1980,
Tarcisio Meira também realiza o último desejo de Ney Latorraca em Um Beijo no
Asfalto, adaptação da obra de Nelson Rodrigues, que já tinha desnudado toda a
hipocrisia de uma sociedade conservadora e que julga as pessoas acima de suas
qualidades.
E há dezenas de outros casos na sétima arte que provam que as produções já
encaram esse dilema como ultrapassado. Antonio Banderas faz sexo com outros
atores no polêmico A Lei do Desejo, de Pedro Almodovar. Garotas Selvagens tem
uma troca de saliva de tirar o fôlego entre Neve Campbell e Denise Richards.
Naomi Watts e Laura Harring também se curtem mutuamente em A Cidade dos Sonhos,
dirigido por David Linch. Leonardo Di Caprio e David Thewlis compartilhavam
poemas e a cama na adaptação do romance entre os poetas Paul Verlaine e Arthur
Rimbaud em Eclipse de Uma Paixão.
A televisão americana também deu vários passos adiante nessa questão. A HBO
tinha personagens LGBTs em praticamente todas as suas produções, desde The
Wire, Sopranos, OZ e mais recente criou uma série específica sobre o mundo Gay,
Looking. A Warner também produziu The L World, que como o nome diz, explora o
convívio diário de mulheres que gostam de outras mulheres. Há algumas
semanas, outros dois seriados também deixaram os conservadores ouriçados: The
Fosters investiu em uma trama com adolescentes gays trocando carícias e o
megassucesso The Walking Dead incluiu entre seus personagens dois homossexuais.
Mas, quando se trata de novelas, a Globo também não foi pioneira como muitos
imaginam. Na verdade, a primeira cena a conter troca de carinho físico entre
gays foi na novela Amor e Revolução, do SBT, exibida em 2011, encenads pelas
atrizes Giselle Tigre e Luciana Vendramini. A trama era ruim e a produção
amadora, mas Silvio Santos incentivou gestos parecidos, que foi seguido pela
final de Amor à Vida, com Mateus Solano e Thiago Fragoso.
Como vocês podem ver, o meio audiovisual já se libertou há muito tempo desses
dogmas erráticos sobre gênero e sexualidade na hora de contar suas histórias.
Libertemo-nos todos então.

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