segunda-feira, 28 de março de 2016

Orgulho, Preconceito, Zumbis e sonolência


O filme de zumbi é um gênero que se recusa a esgotar. Só de 2015 para cá, 3 filmes foram lançados por grandes produtoras: Como Sobreviver a Um Ataque Zumbi, Cooties e Orgulho e Preconceito e Zumbis. Tudo na esteira do sucesso da série The Walking Dead. Mas se depender dessa trinca aí, os mortos-vivos no cinema já estão quase enterrados.
Orgulho e Preconceito é um clássico da literatura inglesa do século 19. Escrito por Jane Austen, conta uma história de amor na aristocracia inglesa, envolvendo um nobre e uma camponesa de família tradicional, Darcy e Elizabeth. A grande sacação do escritor Seth Grahame –Smith foi pegar a história, que já tinha os direitos autorais liberados pelo tempo, e pôr uma subtrama envolvendo os desmortos, misturando romance e terror.
Não li o livro, mas se for a mesma bobagem que o filme, quero distância. Nada funciona na produção, mesmo com um elenco espetacular que o diretor Burr Steers tem em mãos. Gente do quilate de Jack Huston (Neto do mestre John Huston e o novo Ben-Hur da refilmagem), Sam Riley (O Ian Curtis de Control) e Lily James (Cinderela). Para piorar, é inadmissível que atores como Charles Dance e Lena Headey (os dois saídos diretamente de Game of Thrones) sejam tão mal aproveitados e não passem de quase coadjuvantes. Dance, por sinal, tem praticamente duas falas que o trailer já havia antecipado.
Por falar em trailer, a prévia é desonesta com o público ao vender uma trama com mulheres fortes e guerreiras, além de muita ação. Nada disso se concretiza. Para piorar, o roteiro é incoerente ao propor uma adaptação livre onde as jovens são treinadas para a batalha, em uma cena até divertida. Mas 5 minutos depois, pôe todas elas para disputar “bons partidos” em uma festa, exatamente como um filme clássico faria. Ora, se é para ser uma sátira, que seja adequada aos novos tempos. Afora que todas se portam de maneira patética e indefesa no decorrer da trama.
Que por sua vez é rasa e cheia de buracos. Steers investe tanto nos diálogos impolutos do original que deixa a experiência arrastada. Funcionou em Romeu e Julieta, com Leonardo Dicaprio, mas ali a trama tinha pique suficiente para manter a atenção do público. No caso atual, fica tudo maçante. A fotografia é comum demais e os efeitos especiais parecem feitos para produções televisivas. Sem contar que a trama mais legal e que renderia bastante, é deixada de lado até os segundos finais. Como já havia dito em outros textos, tudo fica mais legal com zumbis. Mas se eles quase não aparecem, como levar a sério um filme que os tem no título?. Acho que nem os produtores sabem a resposta.


Império
dos Mortos
Comecei a ler a primeira parte da minissérie de George Romero e Alex Maleev para a Marvel. É uma boa trama, apesar de uns problemas de condução dos personagens. Esse primeiro tomo reúne os 5 capítulos iniciais de 15 prometidos. Esta sim é uma boa história de zumbis e ainda consegue fazer uma bem vinda adição de vampiros na história, que tem clima noir e de urgência urbana. Aguardo com ansiedade as próximas edições.

segunda-feira, 14 de março de 2016

O diabo está nos detalhes




Lá pela metade de Spotlight (2015), o jornalista Mike Rezendes (Mark Ruffalo, ótimo) tem um acesso de raiva no meio da redação. É uma mistura de ansiedade e indignação. O primeiro sentimento é pela vontade de ter o seu trabalho exposto para a sociedade. Mas Rezendes também está enojado com o que estava apurando. O seu semblante contrasta com o sangue frio do seu editor-chefe, Walter Robinson (Michael Keaton, competente). Este quer apurar melhor o escândalo. Quer evitar informações erradas que possam desacreditar a reportagem.
Rezendes e Robinson não estão de lados diferentes nessa luta. São apenas dois bons jornalistas numa batalha aguerrida pela verdade diante da opinião pública. Ambos são membros da equipe Spotlight, como eram chamados os profissionais investigativos do Boston Globe. Eles descobriram uma relação aterrorizante entre a Igreja Católica e a pedofilia. Dezenas de padres abusavam de crianças e a única “punição” que recebiam era a troca de paróquia.  A investigação foi por acaso, graças a uma nota de um colunista, o que levantou a suspeita do novo diretor de redação Martyn Baron (Liev Schreiber, em uma atuação discreta, mas determinante). Quando os primeiros fios foram puxados, descobriu-se um novelo de intrigas.
Spotlight ganhou o Oscar deste ano não por ser um grande filme. Não é. É até um filme bem modesto comparado outros concorrentes, como Mad Max e o Regresso. Mas creio que o propósito do diretor Tom Mccarthy tenha sido exatamente esse. Dar uma dimensão realista a uma história real. A estatueta veio pela força dos temas abordados. Que são o papel do jornalismo e também como a igreja pode ser nociva para sociedade. Há um diálogo muito bom entre a personagem Sacha Pfeiffer (vivida com garra por Rachel McAdams) e uma das vítimas do padre, que simboliza essa relação da religião como vilã e se mostrar como salvadora.
O homem, abusado na infância, começa falando, relutantemente, como um quase defensor dos padres, até aos poucos cair em si. Sobra o silêncio. Aqui, a hierarquia católica funciona como uma mão invisível sobre todos. Não é a toa que a maioria dos planos abertos possui uma igreja em destaque. Mesmo querendo que o Oscar de filme fosse para Mad Max, acho que aqui está em boas mãos. Spotlight é honesto, bem feito e de uma importância social imensurável. Sua mensagem deve durar por muito tempo, como só as boas histórias conseguem.

PS: No final do filme, há várias cidades citadas onde os padres foram denunciados por pedofilia. Quatro são brasileiras: Arapiraca, Mariana, Rio de Janeiro e Franca. É assustador perceber como esse é um problema mundial e que a instituição Igreja ainda faz pouco caso disso. 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Um quase-clássico




O Regresso (The Revenant, 2015) venceu três Oscars. Dois deles foram merecidos. Um não. Então, para poder falar sobre o filme, vamos começar pelo prêmio da academia que menos provoca discussão: o de Melhor Ator. Criou-se uma aura de injustiçado sobre Leonardo DiCaprio, mesmo que ele tivesse poucas indicações (4 no total). DiCaprio é um ator excelente, que já teve grandes momentos no cinema. Meu favorito é o personagem dele no espetacular e subestimado “Ilha do Medo” (Shutter Island, 2010) do mestre Martin Scorsese.
Apesar de não ter seu melhor momento na produção atual, não se pode dizer que ele não mereceu. Sua entrega física e psicológica para compor Hugh Glass, que foi deixado à morte em um ambiente hostil e busca vingança, é fascinante. Os ótimos Tom Hardy e Domhnall Glesson completam o bom elenco. A outra estatueta merecida foi para a Fotografia de Emmanuel Lubezki. Eu torcia particularmente para John Seale, que faz um trabalho absurdamente bonito em “Mad Max – Estrada da Fúria”. Mas Lubezki é um grande profissional. Tem domínio de cena, mesmo em condições adversas, das cores, e consegue fazer boas sequências com luz natural.
Mas “O Regresso” também tem problemas. A começar pelo roteiro. O script de Mark L. Smith se esforça para dar um caráter espiritual à jornada contra a morte de Glass, como se os esforços sangrentos dele para sobreviver não fossem fortes o suficiente para a história. E são. Entretanto, há uma clara dicotomia entre realismo e religiosidade aqui, que distrai quem assiste e quebra o próprio ritmo da narrativa. E ainda tenta forçar uma relação íntima do caçador com os índios, que também não acrescenta nada à trama, apesar de servir para selar (ou não) o destino dos personagens. Para terminar, alguns furos incomodam bastante (como um capitão vai caçar um fugitivo sozinho, quando tinha um exercito, o filme inteiro, à sua disposição?).
O que nos traz a outra dificuldade da película de se estabelecer como um dos grandes épicos históricos do cinema: a própria direção de Alejandro González Iñárritu. Não posso dizer que sou fã do cineasta. Acho “Babel” e “21 Gramas” bem fracos. Por outro lado, me surpreendi com “Birdman”, que é um grande filme do início ao fim. No trabalho que lhe deu o Oscar, Iñarritu tenta dar uma dimensão onírica ao próprio ofício, investindo em longos planos-sequências (o que funciona no início apenas), estranhos movimentos de câmera e opções visuais duvidosas (sangue respingando e respiração embaçando lentes), mas só consegue soar auto-indulgente. Iñarritu quer ser Terrence Malick, mas só consegue se comparar com Steven Spielberg, em seus piores momentos. Isso compromete definitivamente a história, que poderia ganhar uma dimensão mais realista, perturbadora e igualmente fascinante. Ou seja, uma bela oportunidade quase jogada fora. Fica a certeza que esse prêmio deveria estar nas mãos de George Miller e sua desert ópera enlouquecida. Mas a Academia nunca foi conhecida por fazer justiça aos seus.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Entre segundas e terceiras chances




Pensem em quanta coisa mudou na vida de vocês e do país em 20 anos. Pois esse foi o tempo que “Chatô – O Rei do Brasil” demorou a ver a luz do dia, ou melhor do escurinho da sala grande. Lançado nos cinemas em novembro do ano passado em salas restritas, o filme não atraiu grande público. Mas agora, a história ganha uma nova chance com a disponibilização no Netflix. E - surpresa! – o filme é bom.
A priori, dois pensamentos invadem minha cabeça: Se tivesse sido lançado com o planejamento da época, seria um clássico instantâneo. Acabou perdendo o posto de pioneiro na comédia histórica nacional para “Carlota Joaquina”, lançado em 1995. Outra percepção: o tempo é cruel com todo mundo, menos com a Letícia Sabatella. É curioso notar como o elenco principal envelheceu nessas décadas. Alguns, como José Lewgoy e Walmor Chagas, morreram antes do lançamento da película.
O maior trunfo de Guilherme Fontes é também seu calcanhar de aquiles. O roteiro é ousado e, por isso mesmo, bem difícil de ser filmado. Não é a toa que o dinheiro acabou antes da pós-produção, o que trouxe problemas jurídicos entre o diretor e o Governo, que queria o dinheiro investido de volta. Ao situar a ação em vários locais e épocas diferentes, ele enfrentou um desafio gigante na cenografia e figurino. O filme captou na época R$ 8 milhões, o que hoje daria R$ 66 milhões. Uma quantia razoável para um filme americano, mas uma fortuna em se tratando do cinema nacional.
No final das contas, os acertos são maiores que os problemas. Guardadas as devidas proporções, a produção me lembrou o perrengue que Francis Coppola enfrentou para filmar “Apocalipse Now” (o processo, inclusive, virou documentário) e também a luta de Terry Gilliam para que sua visão de “Dom Quixote” ganhe vida (esperamos até hoje por isso).
A narrativa passeia entre a realidade e o delírio, entre o surrealismo e a sátira pura. Uma chanchada nacional com toques de Woody Allen, Wes Anderson, Joel e Ethan Coen, e até de Alejandro Jodorowski. Se fosse um pouco mais enxuto e simples, seria o nosso “Amarcord”, a obra-prima de Federico Fellini. É uma viagem alucinógena por um Brasil em urbanização e pós-colonial, apoiado por uma biografia rica em detalhes e mesmo assim desconstruída totalmente (não li o livro de Fernando Morais para comparar, mas já me interessei).
Mas, infelizmente, há muitos problemas também. As atuações são bem canastronas, à exceção de Marco Ricca, excelente como o personagem título, o magnata das comunicações Assis Chateaubriand. A história do empresário é cheia de nuances e passagens surpreendentes, mas o elenco não acompanha o ritmo e a linguagem impostos pelo diretor. Paulo Betti, por exemplo, parece completamente deslocado como Getúlio Vargas e a já citada Letícia Sabatella faz pouco mais que uma figuração.
Acho que pelas falhas de planejamento do material filmado, a montagem parece ora acelerada, ora arrastada. Creio que Fontes teve que se virar com o material que tinha nas mãos. O brasileiro não é um Orson Welles que destrinchou a vida de um magnata americano com ironia e perversidade em “Cidadão Kane”, mas o roteiro dele possuia a excentricidade necessária para render um bom filme. É uma pena que todo o imbróglio da produção tenha praticamente sepultado a carreira que o ator/cineasta. Teria muito futuro.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Esta não é uma linda história de amor


Ryan Reynolds deve estar rindo com as paredes. Afinal, ele batalhou por 10 anos para adaptar Deadpool dos quadrinhos para o cinema. O temor da Fox (que detêm os direitos da maioria dos mutantes da Marvel na tela grande) era até justificado. Nas HQs, o assassino tagarela é um poço de histórias politicamente incorretas. Mutilações, palavrões, mortes bizarras e muitas, muitas referências à cultura pop em geral. O ator teve seu sonho quase realizado em X-Men Origens - Wolverine, mas o filme era um desastre completo e Deadpool virou um personagem patético ali.
Tudo mudou em 2014, quando testes de filmagens vazaram na internet e fizeram sucesso nas redes sociais. Isso acendeu o sinal verde para os executivos de estúdio. Surpreendentemente, 2 anos depois, o herói é um sucesso de público e crítica. Um alento para a produtora, que estava amargando um prejuízo enorme com o horrível Quarteto Fantástico. No fim das contas, Reynolds estava certo. Ele É Deadpool. Com o tipo físico adequado e um timing próprio para o humor, ele domina a tela, mesmo quando está de máscara. E como principal defensor da ideia, o galã não faz concessões no palavreado sujo e nem com a própria persona sexual.   
Morena Baccarin, linda e desinibida, ameaça o posto de musas dos nerds de Scarlet Johansson e Zoe Saldaña.  Por outro lado, os vilões de Ed Skrein e Gina Carano são meio decepcionantes, não indo além da cara de mau e das motivações clichês do gênero.  Mas o roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick (dupla responsável pelo ótimo Zumbilândia) tem muitos méritos: é cínico e debochado o suficiente para tirar sarro com o diretor, os produtores e até com o ator principal (as referências a Wolverine e Lanterna Verde são muito divertidas).
Aliás, todo o universo dos mutantes é motivo de chacota. Deadpool atira (literalmente) para todos os lados. Sobra para o Capitão América, Demolidor e, principalmente para os X-Men, que o filme lembra toda hora que este passa no mesmo universo daqueles heróis. Por isso, a película tem a presença importante de um ilustre representante da escola do Professor Xavier no enredo.  As gags que remetem a outros filmes estão por toda parte: Monty Python, Star Wars, O Senhor dos Anéis. Se você gosta de filmes dos anos de 1980, fique até o final dos créditos. Há uma pérola ali referente a um clássico da Sessão da Tarde.  
Reese e Wernick investem ainda na constante quebra da quarta parede. Além de conversar diversas vezes diretamente com o público , o personagem brinca com as lentes e até movimenta a câmera com as mãos para que os espectadores “evitem” uma cena violenta. Falando nisso, violência é que não falta. O que seria um empecilho para as bilheterias, parece um dos trunfos de Deadpool. É o primeiro sucesso da Marvel que não é indicado também para os adolescentes (Justiceiro e Motoqueiro Fantasma não foram tão amados assim). E isso pode mudar muita coisa daqui para frente nas adaptações de quadrinhos. Guerra Civil vem ai. E a DC investe pesado em tramas mais soturnas com Batman vs Superman e Esquadrão Suicida. A conferir.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Os Grilhões do Passado


Você sabe que Os 8 Odiados é um filme de Quentin Tarantino quando o cineasta consegue colocar no mesmo “balaio” visual referências a filmes como Meu Ódio Será Tua Herança e O Enigma do Outro Mundo, além de uma obra clássica da literatura como O Assassinato no Expresso Oriente. Ou seja, a película tem elementos de westerns, terror e suspense, ao mesmo tempo em que não é nenhum dos 3 gêneros. Parece confuso? A intenção, claramente, é essa.
O ponto de partida é a história de 9 desconhecidos (isso mesmo, são 9 e não 8 personagens. Trata-se de mais uma ironia tarantinesca, já no título da obra: é o seu 8º filme e remete também a 8 ½, de Federico Fellini) que ficam presos em uma cabana enquanto aguardam a passagem de uma nevasca. A tensão é crescente e as intenções são desnudadas aos poucos. Esse “nada é o que parece” é reforçado pela atmosfera pesada e melancólica da trilha do mestre Ennio Morricone e pelo design de produção fantástico, que transforma o, quase, único cenário do filme em uma prisão natural ora claustrofóbica, ora estranhamente acolhedora.
Os 8 Odiados também é puro teatro, perfeito para que os atores brilhem. Cada um a seu tempo. Por outro lado, há Samuel L. Jackson. É dele a maior atenção da câmera, sempre bem posicionada, de Tarantino. Um personagem bem blaxplotation (produções negras da década de 1970) perdido em um faroeste macarrônico. Ele também é quem carrega o Mcguffin (elemento simbólico que move a narrativa, como a mala dourada de Pulp Fiction) da vez. A suposta carta de Abrahan Lincoln ao personagem Major Marquis  não é aleatória. E por estar nas mãos de um negro causa estranhamento e conflitos, além de ter um papel determinantemente simbólico no ato final do filme.
A “cabana do Terror” é o microcosmo perfeito da democracia americana. Aqui temos, de novo, uma representação da genialidade da película. Ao juntar vários extratos sociais distribuídos entre personagens diferentes, Quentin Tarantino cria um pequeno embate entre a política representativa e aquela que privilegia determinados grupos sociais. Mexicanos, negros, mulheres, brancos, racistas, europeus colonizadores.  Está tudo ali. Uma aula da história americana se você prestar atenção nas entrelinhas.
A propensão do filme ao gore e a histeria não é por acaso. O autor atira nas referências à Don Siegel e Sergio Leone, e também acerta em Dario Argento e Lucio Fulci. Os embates de sangue são desenhados com uma costura narrativa impressionante. E diálogos afiadíssimos, como de habitual.  Tarantino não tem pressa em criar um clímax para a história, se é que ele existe. E tome flashbacks, tensões não-realizadas e variações entre closes e planos abertos. Referências sempre presentes em um autor que não tem medo de se reinventar mantendo seu avatar no devido status quo. Ao manipular seus conceitos de ética e violência, Tarantino é tão odiado quanto seus personagens. Mas pode ser amado na mesma proporção, graças ao seu cinismo por trás das câmeras. E nesse exemplar temos um diretor transformando o barulho, provocado pelos pesados grilhões que o prendem ao seu passado no cinema, em música. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Os melhores de 2015

Vamos para aquela lista marota de melhores do ano? Vamos:



- Mad Max/ A Estrada da Fúria – George Miller
- Que Horas Ela Volta? – Anna Mulayert
- Divertidamente – Peter Docter e Ronaldo Del Carmen
- Ida - Paweł Pawlikowski
- Birdman - Alejandro González Iñárritu
- A Corrente do Mal – David Robert Mitchell
- Sangue Azul – Lírio Ferreira
- Star Wars – O Despertar da Força – JJ Abrams
- A Gangue - Myroslav Slaboshpytskiy
- A Pele de Vênus – Roman Polanski


O melhor do Netflix – Beast of No Nation – Cary Fukunaga
Achei bem marromenos: Whiplash – Damien Chazelle
Blockbuster do ano: Mad Max – George Miller
Não esperava nada e gostei: Homem-Formiga – Peyton Reed
Esperava muito e decepcionei: John Morre no Final – Don Coscarelli
Vou Ficar devendo: Leviatã, o Expresso do Amanhã, Straight Outta Compton, Jurassic World, 45 anos e Vicio Inerente.

Diretor: George Miller
Roteiro: A Corrente do Mal
Ator: Michael Keaton – Birdman
Atriz – Regina Casé – Que Horas Ela Volta?
Série do Ano: The Knick
Roteiro: Sense 8
Atriz: Kristen Ritter – Jessica Jones
Ator: David Tennant – Jessica Jones
Clive Owen – The Knick
Não esperava nada e gostei : Magnifica 70
Larguei de mão: Game of Thrones
Abusando da minha paciência: The Walking Dead

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Um novo Star Wars para a nova geração



Há duas maneiras de se apreciar Star Wars – O Despertar da Força. Ambas são a “força” do filme, mas também seu “lado negro”. Quem já é familiarizado com o cânone da saga, vai adorar ver como J.J. Abrams é 100% fiel ao estilo de George Lucas nos filmes originais. Mas também irá perceber que essa mesma reverência é o elo fraco dessa reconstrução: A história lembra demais Uma Nova Esperança, até na distribuição dos arquétipos pela narrativa. Abrams não se pauta pela novidade, mas pela reconstrução semiótica do que já é consagrado.
Não é a toa que o diretor também escreve a obra junto ao veterano Lawrence Kasdan, responsável pelos dois melhores filmes da trilogia original (O Império Contra-Ataca e o Retorno do Jedi). Outro grande mérito aqui é praticamente esquecer a segunda trilogia de Lucas (A Ameaça Fantasma, O Ataque dos Clones e a Vingança dos Siths). Nada daqueles exageros de cores, efeitos visuais forçados e diálogos ruins.
Claro que há aqueles que nunca viram nenhuma película ou não sabem nada da mitologia. Este irão adorar o clima de sci-fi antigo e quadrinhos. Há fantasia, ação, suspense, romance e comédia. Tudo bem equilibrado pelo roteiro, sem excessos. A reapresentação dos personagens já conhecidos é equilibrada. O maior defeito, aqui, também é o respeito ao material original, que pode deixar o espectador boiando em alguns momentos ou não entendendo referências (há algumas boas, fora da saga, como Apocalipse Now).
Os principais méritos estão, é claro, na parte técnica e no elenco. É um filme bonito, bem fotografado, com um design de produção fantástico e efeitos visuais mais práticos,  com um bem vindo retorno ao original, com cenários reais e personagens animatrônicos, deixando o CGI apenas para as cenas espaciais ou de naves. O design de som é maravilhoso e Bem Burtt prova que é o mestre em dar personalidades para robôs só com sons eletrônicos.
Quanto aos atores, Daisy Ridler e John Boyega são gratas surpresas. A primeira consegue transformar a protagonista Rey em uma personagem forte e decidida, mesmo em um ambiente hostil. Já Boyega é Finn, um humano medroso e engraçado, mas sem exageros. Oscar Issacs também é destaque com o corajoso piloto Poe Dameron. Uma mulher, um negro e um latino como protagonista são algumas das escolhas acertadas de J.J, que não dá escala de importância para o elenco por etnia ou gênero. Pensem na importância disso ao imaginar a cabeça de uma criança ao ver seus heróis imaginados dentro de sua própria representação social. E tem uma participação especial de Max Von Sydow, que dispensa comentários.
E não posso deixar de terminar esse texto sem falar dos nossos “amigos” de outras décadas: Han Solo, Leia e Luke Skywalker são importantes para a nova trama e um deleite para os fãs quando aparecem. É fácil abrir um sorriso quando Harrison Ford, Carrie Fisher e Mark Hamill aparecem em momentos diferentes e belas cenas. Se você é um fanático por essa batalha nas estrelas, prepare o lenço que há algumas bem emocionantes. Quem venha os próximos episódios e seus derivados. E que força esteja no nosso bolso para dar conta disso.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Criador e Criatura


Quando Star Wars – O Despertar da Força estrear nesta quinta-feira, 17 de dezembro, milhares de pessoas já terão comprado seus ingressos antecipados, tornando o 7º filme da mitologia um fenômeno de bilheteria antecipado. E basta uma volta pelas ruas, para ver a convulsão cultural provocada pela franquia em todo o mundo. Em toda a parte, há algum produto sendo vendido com elementos da valiosa marca, com autorização da marca ou não: de shampoos infantis a canecas de cerveja. E a Lucas Films, produtora que gerencia os produtos SW criada por George Lucas, arrecadou, arrecada e arrecadará bilhões de dólares com licenciamentos, séries, jogos (alguns excelentes) hqs e livros.
Todo esse hype se justifica por méritos do próprio diretor, um visionário. Você pode discutir a qualidade intelectual do produto, mas não o senso de oportunidade de Lucas. Em uma década onde o cinema primava pelo realismo na direção e roteiros e diretores do nível de Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Sam Peckimpah dominavam as premiações e corações dos cinéfilos, havia um rapaz franzino e barbudo que preferiu explorar outras frentes, com a ficção científica experimental (o razoável THX-1138, 1971) e a comédia juvenil (Loucuras de Verão – American Graffiti), seu primeiro sucesso, lançado em 1973.
 Mas, o maior arrasa-quarteirão do cinema chegou às salas de cinema  4 anos depois: Star Wars – Uma Nova Esperança era um sci-fi barato e inocente, apesar da estética suja do deserto. Trazendo inovações do campo dos efeitos especiais, o filme chamou a atenção principalmente por resgatar a magia dos seriados americanos que precediam os filmes nas décadas de 1950 e 1960 (Perdidos no Espaço e Flash Gordon, por exemplo), adicionando elementos de Film Noir e Westerns. Tudo cercado por uma ingenuidade típica das histórias em quadrinhos da era de ouro das hqs, quando o maniqueísmo entre vilões e heróis era bem construído em caráter e figurino. Por isso os heróis são “cavaleiros” e os vilões são seres obscuros e apavorantes.
O único senão dessa história é algo que Coppola lamentou em entrevista há alguns dias: Lucas, infelizmente ficou preso no labirinto da sua própria criação, como um Frankenstein moderno admirado e assustado com a proporção que o seu monstro, no caso o seu filme, adquiriu. Uma pena, pois ele poderia ter contribuído muito mais para o cinema de autor. Mesmo assim, deixou sua marca produzindo e roteirizando grandes produções como a série Indiana Jones. E a Disney tenta, agora, desvincular a saga do seu criador, dando uma nova chance para o novo midas de Hollywood, J.J. Abrams. Vamos ver se Abrams fará jus ao cara que deu luz ao maior ícone do cinema Blockbuster: o vilão Darth Vader.  A conferir, afinal, o ingresso já está comprado há algumas semanas.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Que Horas ela volta (2015)



Provavelmente fui uma das últimas pessoas a ver Que Horas Ela Volta (2015), quando o filme já possuía todo o respeito diante da crítica e público. A curiosidade só aumentou quando a obra foi a indicada brasileira ao Oscar de 2016, já que o representante do Brasil deste ano, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, apesar de não ficar entre os finalistas, é excelente e um dos melhores de 2014.
E a obra dirigida e roteirizada por Anna Muylaert merece todas as loas e o hype criado em cima desta. É um filme bem dirigido, enquadrado e que se beneficia naturalmente das pequenas mise-em-scènes que a diretora cria nos ambientes da casa da família de classe onde mora (sobrevive?) a doméstica nordestina Val. Tida como “quase da família”, ela encara pequenas humilhações diárias como algo natural, em prol do amor que tem por aquelas pessoas.
A fotografia, ótima, consegue transformar o quase único cenário da narrativa, a residência dos patrões, em um ambiente dúbio: há momentos que o local é acolhedor e iluminado e em outros, se torna escuro e opressor, como a mão pesada que o sistema social trata a relação entre empregado e empregador.  No caso específico da obra de Muylaert, é esfregado no nosso rosto como o dinheiro é divisor de castas no Brasil. E como pessoas são vistas como subespécies, que servem apenas para limpar ou servir gente que é incapaz de levantar de um sofá para pegar um sorvete na geladeira ou até mesmo um copo d’água, enquanto está com a cara enfurnada no celular.
É um choque de gerações (principalmente entre os dois adolescentes: um tem tudo, a outra tem que lutar pelos seus ideais, mesmo diante de muitos obstáculos pela frente). O final é poético e desconstrói o início da trama, quando Val deixa de cuidar da própria filha, para “educar” o filho daqueles que acham que o dinheiro é capaz até de comprar amor e respeito. Não vou dar spoiler, mas se vocês entenderem essa “ponte” narrativa, entenderão como a história é ótima em vários pontos de vistas.  
E quanto à falada atuação de Regina Casé, todas as críticas positivas se justificam: a sua Val é cheia de virtudes e maneirismos típicos que você esquece que quem está ali é uma apresentadora de televisão. Nos pequenos gestos, na fala contida, no conformismo do olhar ou nos diálogos improvisados estão os seus valores como atriz. Se o Oscar fosse um prêmio justo, Casé merecia uma indicação. Seu trabalho é primoroso e um dos melhores que já vi no cinema brasileiro. Destaque também para Carmila Márdila, como Jéssica, rebelde e questionadora, como os jovens devem ser. E para o quadrinhista e escritor Lourenço Mutarelli, como o conformado Carlos.
Desde já estou torcendo que a película fique entre os finalistas do Oscar: Muylaert e Regina Casé merecem ser reconhecidas mundialmente por este grande filme.