segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O ódio será nossa herança





Quando Kirk Douglas cai diante de todos, bêbado, desnudando sua própria farsa criada em torno de uma tragédia em A montanha dos 7 Abutres (Ace in the Hole, 1951), ele representa uma face cruel do poder humano na criação de falsos mitos e promessas vãs que vendem soluções sociais fáceis. Fico pensando como, em tempos de crises, os falsos profetas refestelam-se diante do desespero social e levam a maioria rumo ao precipício da histeria coletiva.
Um nível acima dessa construção de poder estão as redes sociais e sua tendência incomum e quase irremediável em criar uma espiral de anti-informação, pela capacidade abusiva de se acreditar em clichês argumentativos ou discursos simplistas. A fé dirige-se para o que está na rede ou parte de gente com credibilidade duvidosa (que age por má fé ou deficiências intelectuais, como uma espécie de cegueira dogmática). Quem se beneficia com essa falta de diálogo ou criação gratuita de ódio contra o outro – criando vilões de ocasião - é aquele que pende para uma lógica fascista na ascendência ao poder e tem na falta de empatia com o outro, o seu trunfo.
No filme A Onda (Die Welle, 2008), o professor usa um experimento social em sala de aula para provar que a sociedade pode ser facilmente manipulada ou levada a praticar discursos ideológicos que, em condições normais, não faria. Em uma comparação bruta, é mais ou menos isso que determinados grupos ou pessoas fazem ao espalhar boatos, demonizar a política como ambiente democrático de debate e disseminar discursos de ataques ou de intolerância religiosa na grande rede. Hoje é para a Igreja Zuckerberg que dizemos amém.
Não temos os “bombeiros” (como em Fahrenheit 451, de 1953 – filme espetacular de François Truffaut), mas temos formadores de opinião virtuais cuja cretinice discursiva faz sucesso na massa. E toma-lhe curtir e/ou compartilhar. Creio que um botão questionar não seria uma ideia ruim. Entretanto, seria atacado pela própria natureza simbólica que carrega: o pensamento crítico é o veneno do maniqueísmo sociológico. Precisamos questionar se é completamente confortável viver à sombra desse Panóptico eletrônico. Aumentar sua própria bagagem cultural e não acreditar nesses falsos messias binários já é um bom começo.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A cobra mordendo o próprio rabo

Na semana passada, o Ministério Público do Estado do Pará apresentou um anteprojeto de lei que restringe o horário de funcionamento de bares, casas de shows e restaurantes para as 23h durante a semana e 2h da manhã nos finais de semana. É uma tentativa de conter o crescimento da violência no Estado e tem a anuência do Governo do Estado. Na minha opinião, é uma medida um tanto quanto inócua, que só cria mais restrições sociais para moradores que já estão cercados de limitações no seu exercício de cidadania: os jovens da periferia.
É claro que este é o público mais atingido pela medida. Há uma clara associação entre a insegurança com as festas e bares de periferia. Existe ainda uma carga de preconceito implícita aí contra a música chamada Brega e as festas de aparelhagens, quando sabemos que o problema é outro. E responsabiliza-se, por conseguinte, a bebida. Mas o álcool é um problema maior em relação aos crimes de trânsito, que é uma discussão diferente. Os índices de criminalidade são altos por causa do tráfico de drogas e do crescimento de poderes paralelos, como mostrou a CPI das Milícias da Assembleia Legislativa.
Quando se trata de segurança pública, sabemos que desocupar as ruas só agrava o problema. O ideal é ocupá-las com atividades culturais e esportivas, usando espaços públicos e praças. E garantir o mínimo de segurança para isso. As pessoas vão para a rua, saem de casa, interagem. Os comerciantes geram empregos e renda. É um circulo progressivo. Como acontece em alguns pontos da cidade, como a Cidade Velha e o Reduto, por exemplo. Mas é pouco, muito pouco, diante da quantidade de bairros na Região Metropolitana de Belém. O projeto é a síntese do Estado (no entendimento amplo do termo) transferindo para o outro uma responsabilidade que é sua, que seria garantir o básico da Educação, Saúde, Lazer e Cultura para a população. Não há boa vontade política e administrativa para isso. Lamentavelmente.

Maratona Star Wars
Aumentando a expectativa para a estreia do filme O Despertar da Força, novo episódio da Saga Star Wars, que chegará aos cinemas no dia 17 de dezembro, o Centro Cultural Brasil Estados Unidos promove, a partir desta quinta-feira (26), a exibição das 6 primeiras obras na ordem cronológica dos roteiros. As sessões ocorrem sempre às 18h30, no Cine Teatro do CCBEU, que fica na Travessa Padre Eutíquio, 1309.
Quinta será exibido A Ameaça Fantasma. Já sexta, será a vez do O Ataque dos Clones. No dia 30, haverá a projeção de A Vingança dos Sith. Em seguida, no dia 7 de dezembro, o primeiro filme da saga terá vez: Uma Nova Esperança. No dia seguinte, O Império Contra-ataca. Fechando o ciclo, no dia 14, O Retorno de Jedi. Excelente ideia para os fãs.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Garotos Perdidos





As crianças são as maiores vítimas das guerras. Afinal, por serem inocentes e indefesas, carregam traumas que irão durar por toda a vida, se elas conseguirem sobreviver. Por outro lado, há muitos casos de conflitos bélicos onde a infância é uma arma nas mãos de ditadores e guerrilheiros. Criam-se os meninos-soldados, forçados a abandonar a infância em prol de causas obscuras.
Este enredo, tão real quanto o possível, é apresentado em Beast of no Nation (2015). É a 1ª produção cinematográfica produzida e financiada pela Netflix e que funciona como um tipo de “teste” sobre financiamento paras filmes sob demanda para a internet (on demand), a partir do modelo de reprodução já consagrado pela empresa, que tem outras 3 obras engatilhadas para 2016.
E o diretor Cary Fukunaga (que já mostrou o quanto é bom na ótima 1ª Temporada de True Detective) investe em um tema polêmico para a empreitada: ele conta a história de  Agu (o estreante e carismático Abraham Attah), um garoto africano que vê a família ser dizimada na guerra e é obrigado a fazer parte de um grupo paramilitar para sobreviver. Fukunaga faz um belo estudo de personagem. A câmera acompanha a transição dolorosa da persona de Agu, de um ser pequeno e frágil para uma figura ameaçadora e perigosa, capaz de atrocidades que, em condições normais, não somos capazes de conceber.
O cineasta faz dessa passagem a mais orgânica possível através da fotografia e do figurino. Inicialmente ele investe em paletas de cores neutras e vestimentas claras, para mostrar como a vida em um vilarejo da África (mesmo que em nenhum momento fique claro que país é) era difícil, porém calma e feliz. Em um determinado momento da trama, há uma mudança para tons fortes e roupas vermelhas, potencializando o sentimento de violência e morte, sob o sol escaldante das florestas africanas.
Para fugir dessa realidade em raros momentos, Agu recorre à TV, que vira uma caixa de ilusões (e uma rica metáfora visual que remete ao início da trama). O menino acaba criando amizade com outro soldado, Strika (Outro novato e igualmente espetacular, Emmanuel Nii Adom Quaye), que através de várias brincadeiras, nos lembram de que temos apenas garotos ali.
 E existe outro grande trunfo para o filme: a presença magnética de Idris Elba. Desde a primeira aparição deste, como um messias no meio da floresta, ele toma conta da tela com seu carisma ameaçador. O Comandante é capaz de convencer qualquer um a segui-lo e aproveita o ambiente de fome e pobreza para se impôr à força, seja física ou sexualmente (há uma cena subentendida de abuso chocante e, ao mesmo tempo, tocante).  
 O diálogo final, aonde os sentimentos acumulados vêm à tona nas expressões do rosto de um jovem que esqueceu a própria infância no caminho para a vida adulta, é forte o suficiente para determinar a obra como uma das mais importantes do ano e um registro da importância do resgate da infância, seja na África, Europa ou na periferia das grandes cidades brasileiras.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Crying in the Rain Forest



Há alguns meses a mineradora Hydro/Alunorte anunciou um show exclusivo para funcionários da empresa com uma banda internacional em Barcarena. Desde o primeiro segundo dessa divulgação, a empresa foi alvo de lamentações e reclamações nas redes sociais. Isso por causa do grupo que faria o tal show: os noruegueses do A-ha. A mobilização foi tanta que a empresa acabou abrindo a apresentação para mais convidados, em Barcarena e Paragominas (nos dias 1º e 3 de outubro, respectivamente) e criou uma bem bolada campanha de doação de material escolar em troca de ingressos.
Foi o que bastou para o público paraense “invadir” as duas cidades no rastro da banda, que já estava no Brasil para o Rock in Rio. Em Barcarena, mais próximo da capital, eram centenas de carros chegando em comboio ao município desde as primeiras horas da tarde da última quinta-feira. Muitos aproveitaram para fazer um “pré-aquecimento” e começar a festa nos bares e restaurantes do lado de fora do local onde os músicos se apresentariam.
E tome carros com sons potentes tocando rocks nostálgicos, a trilha sonora perfeita para a imensa fila que se formou no entorno da entrada principal do Cabana Clube. Entrada, por sinal, muito bem organizada pelos produtores da festa. O show só comprovou o que já havia dito na coluna passada sobre o fascínio que os anos 80 exercem no público, e o A-ha carrega essa aura de sucesso e pertencimento ao período.
Às 20h em ponto, Morten Harket, Magne Furuholmen e Pål Waaktaar subiram ao palco, para o delírio do público presente. O tempo foi generoso com o trio e Harket ainda mantém a pose de galã típico dos anos de 1980. Depois de três décadas na estrada, eles mantêm um entrosamento visível e audível. E é claro que a banda não decepcionou os fãs, sejam aqueles que acompanham o trabalho deles ou os de ocasião.
O próprio tecladista, Magne, disse durante a apresentação que eles iam tocar músicas do disco novo e as antigas. Em cada uma delas, um tipo de empolgação, seja de curiosidade ou de nostalgia. Porém, a gritaria e agitação eram maiores, obviamente, com os grandes sucessos. “Cry Wolf”, “Stay on These Roads”, You Are the One”, “Crying in the Rain”, “Hunting High and Low”. Uma sequência de hits de rádio para ninguém botar defeito.
O grupo voltou para dois bis. No primeiro, “The Sun Always Shine on TV” teve imagens de Barcarena projetadas nos telões ao fundo. Já em “The Living Daylights” (da trilha sonora de abertura do filme 007 – Marcado para a Morte), a energia era contagiante. O refrão fez as milhares de pessoas que ocupavam o campo de futebol do clube pularem bastante.
Morten e Cia agradeceram o público e sairam do palco. Mas faltava algo. Claro, “Take on Me”. Propositalmente, eles mantiveram o suspense até o final. A canção símbolo da era dos videoclipes foi cantada em coro por quase todos. Mesmo quem não entendia nada de inglês. Para quem encarou a estrada por várias horas para ir e voltar, isso pouco importava.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Anos dourados


Na última sexta-feira (25), quando comecei a escrever este texto, havia uma fila gigantesca para trocar kit de material escolar por ingressos para o show da banda norueguesa A-Ha. Este caso é mais um exemplo de como os anos da década de 1980 ainda exercem um fascínio único nas pessoas. Um misto de nostalgia e diversão, que até mesmo quem não viveu aquela época sente. Mas, qual o motivo para a existência desse saudosismo cultural de 3 décadas atrás, que nenhum outro período é capaz de disputar?.
Bem, primeiro acho que o próprio período tem uma resposta mais ou menos certa. Os EUA haviam passado pela Guerra do Vietnã. E os jovens mudaram seu paradigma de comportamento, influenciados pela liberação sexual e o desejo de ter a liberdade de fazer o que quiser, rompendo convenções sociais. Em suma, a época que o pop dominou as paradas de sucesso, com Madonna, Cindy Lauper e o funk modernizado do Michael Jackson. No cinema, o sucesso do Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado.
Enfim, a cultura pop abraçou sua vocação kitsch, alegre e exagerada. E eis, que um astronauta fincou uma bandeira na lua, no spot da MTV, e o estrago estava feito. Todo mundo adorava passar horas vendo videoclipes, quando os criadores do Youtube ainda engatinhavam.  A Europa também passava por mudanças. A vocação industrial começa a perder fôlego, a população da periferia já tinha tido voz com o Punk e o pós-punk doutrinava a mente musical da garotada com Depeche Mode e The Smiths. Os sintetizadores viraram instrumentos necessários e o próprio A-Ha nasceu nesse bom das batidas eletrônicas.  
Foi também a época que a tecnologia se tornou mais acessível. O Walk-man e o Disc-man dominavam os ouvidos. A televisão estava mais barata. Os videocassetes permitiam a gravação de musicais pela TV. E os aparelhos de som 3 em 1 enfeitavam as salas. Toda prateleira que se prezasse, tinha uma coleção de vinis e fitas-cassetes. Quem nunca trocou fitas com coletâneas gravadas com os amigos?.
Bem, e quem viveu aquela época hoje beira a casa dos 40 anos, tem maturidade, estabilidade financeira e ainda consome muito daquilo. Não é a toa que as festas do Hot Classics são sinônimos de casa cheia. E que os shows dos artistas que permanecem na ativa lotam igualmente. É por isso que o Simple Minds e, por conseguinte, os anos 80, cantam com tanta ênfase: “Don't You (Forget About Me)”. Se depender desse público consumidor, a década não será esquecida tão cedo...

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O prazer através do outro


  
Uma das grandes vantagens desse início de operação do Social Comics é a quantidade absurda de quadrinhos nacionais à disposição dos leitores. São HQs feitas por brasileiros talentosos que não conseguiriam o mesmo espaço e alcance de publicação em bancas de revistas e casas especializadas na nona arte, mas não devem em nada para artistas de outros países e grandes editoras. Uma das primeiras obras que li no aplicativo e me surpreendeu positivamente foi Necromorfus, criado e roteirizado por Gabriel Arrais e desenhado por Magenta King. A Grafic Novel é uma publicação da editora RQT Comics, e Necromorfus é seu primeiro projeto.

O impresso conta a história de Douglas, um adolescente que pode assumir a forma de qualquer pessoa falecida, bastando para isso apenas tocar em qualquer resto mortal do morto. Mas, o que parece um dom, também é uma maldição. O jovem não apenas herda a aparência do morto (homem ou mulher), mas suas lembranças, pensamentos e até as dores sentidas na hora da morte. Por causa disso, Douglas parou de envelhecer. Ele se tornou um ser imortal aprisionado aos corpos dos outros.

Nesse caso, ele lembra bastante a personagem Mística, dos X-Men. Porém, diferente daquela mutante da Marvel, que usa muito seus poderes para atingir diversos objetivos naquele universo, o garoto usa sua “benção” mais para estudar as personas alheias. Ele é uma espécie de Zelig Mutante. Só que com muito mais camadas de sentimentos, já que o personagem do filme do cineasta Woody Allen parece mais um ser condicionado a assumir a forma de outrem, sem se importar com as consequências do que faz. Assim, mesmo assumindo ter uma maldição Douglas usa seu processo de simbiose para buscar prazer carnal e sentimental, como um drogado e seu entorpecente.

Para apoiar essa construção simbólica de um personagem forte, Magenta King aposta em traços são propositalmente sujos e com formas meio vagas, potencializando a sensação de confusão sentimental do personagem. Mas, não pensem que é uma leitura maçante. Pelo contrário, Arrais também investe em boas cenas usando o espaço meio limitado dos quadrinhos. O fato de Douglas se transformar também em animais mortos, por exemplo, gera sequencias ótimas como a que ele é obrigado a se transmutar em uma barata e um urso para fugir de uma situação específica. Necromorfus é leitura recomendada para quem gosta de quadrinhos. Gabriel Arrais certamente foi influenciado pelo cinema (David Cronemberg e Alessandro Jodorowski) e pela literatura (Franz Kafka e William S. Burroughs) para criar Necromorfus e só isso já é o suficiente para atrair sua atenção. Compre na página da editora na internet ou leia pelo Social Comics.

 

 

Mostra de Cinema da Amazônia

Belém, Bragança, Manaus e Rio Branco são as cidades que receberão a VI Mostra de Cinema da Amazônia. Além das exibições, a mostra terá oficinas, palestras, debates e encontros em espaços diversos, desde salas de cinema e teatros, até escolas públicas, universidades, institutos culturais e centros comunitários. Ficou curioso? A programação completa está no site bacana do evento: http://www.mostradecinemadaamazonia.com/

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A Corrente do Mal





No domingo, dia 30 de agosto, os fãs de cinema lamentaram a morte do cineasta Wes Craven. E na última semana, estreou no cinema, o filme A Corrente do Mal (It Follows, 2015). O quê tem a ver uma notícia com a outra?. Tudo. Com absoluta certeza, o promissor David Robert Mitchell se inspirou bastante na filmografia de Craven para construir a atmosfera impactante que criou para a sua obra, um dos filmes de terror mais surpreendentes dos
últimos anos.
O enredo é simples, como em quase todo bom filme de horror: jovens são perseguidos por uma entidade maligna e desconhecida após terem relações sexuais. O grande problema é que o “monstro” não tem um perfil definido. Ele pode assumir qualquer identidade e aparecer a qualquer momento. A única chance de se livrar dele é fazendo sexo com outra pessoa, que acabando assumindo o carma para si. A tal corrente do título nacional.
Como dito, a produção tem influencias de algumas obras de Craven, como a paranoia sobrenatural de A Hora do Pesadelo (Nightmare On Elm Street, 1986). Além disso relaciona a questão do sexo com maldições, como em Benção Mortal (Deadly Blessing, 1980). Dentro dessa temática, há também similaridades em temática com Rabid (1977), obra ousada e repugnante de David Cronemberg, que foi dirigida em um período de lutas de gênero e liberdade sexual, mas também da proliferação de doenças venéreas.
É claro que a mira do cineasta também está nos slashers movies (filmes de psicopatas assassinados, sendo o mais famoso, o Jason de Sexta-Feira 13) da década de 1980, com direito a sustos fáceis e trilha sonora recheada de sintetizadores. Talvez, It Follows também seja o mais próximo de John Carpenter e seu Halloween que qualquer outra película nos últimos anos.
Porém, aqui, as metáforas são direcionadas para as primeiras relações entre os jovens, com mira nos medos e angústias de uma geração que está conectada ao mundo inteiro pela internet, mas ainda carrega muitas dúvidas sobre virgindade. A falta de contato familiar também é abordada com sutileza por Mitchell.
O cenário, somado a isso, é um personagem importante da história. Detroit foi o centro do desenvolvimento americano por décadas, graças à indústria automobilística. Era tão importante para a economia americana, que foi retratada como um centro tecnológico mundial em Robocop. É em um subúrbio da cidade que a história começa e depois avança para o centro da cidade. E o roteiro se passa ali por razões óbvias. Hoje, Detroit acumula prédios abandonados, ruas sujas e famílias vivendo próximas da linha da pobreza.
Assim como o ótimo Babadook, a Corrente do Mal é uma bela surpresa em um gênero que está sempre se reinventando, que é o Horror. Ou seja, para dar novidade é preciso subvertê-lo, algo que Wes Craven sempre buscou nos seus filmes, principalmente em obras como Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977) e, claro, Pânico (Scream, 1996).

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O fim da pirataria?


Agora em agosto entra no ar uma plataforma chamada Social Comics. Em novembro, outra nomeada Cosmic. O que ambas têm em comum? O fato de usarem um novo modelo de negócios que vem se tornando padrão nestes tempos “pós-Netflix”: o de oferecer conteúdo diversificado e exclusivo a preços módicos, a partir de sistemas criados para a internet, como o streaming. Só que, ao invés de filmes e séries, nos dois casos os produtos oferecidos são as histórias em quadrinhos. Sim, meus caros. Com poucos reais, você tem acesso a uma banca de revista virtual com muitas opções de escolhas. É o sonho de quem tem mais de 30 anos e devorava revistinhas nas esquinas por horas e horas até decidir levar uma para casa.
Já falei sobre o fenômeno Netflix, mas é interessante como esse padrão começa a se estender por outros segmentos. Já existem serviços em testes de livros, revistas e até de conteúdo em vídeos exclusivamente eruditos. Serviços como o Google Music e o Spotify são populares por oferecer música para escutar online ou para download, a partir de bibliotecas gigantescas e que possibilitam a montagem de playlists particulares ou compartilhar gostos (lembram da moda de trocar fitas cassetes gravadas? Pois é)... Ah, e sem esquecer algo que Microsoft e Sony fizeram com os videogames Xbox e Playstation, respectivamente. Os usuários pagam mensalidades para ter acesso a conteúdos exclusivos, poder jogar online e, o melhor, dão vários jogos de graça por mês. Alguns, inclusive, são recentes e custam caro em mídia física.
O que todas essas áreas de produção cultural têm equiparado é que sempre foram alvos da pirataria, que gera bilhões de prejuízos para a indústria, mas por outro lado, permitia um tipo de acesso universal à cultura, mesmo que à margem da lei. Os quadrinhos também são alvo de pirataria desde o início da internet, assim como a música e o cinema. Muitos usuários de fóruns e blogs “escaneavam” suas coleções de gibis e disponibilizavam em PDFs para outros usuários.  E assim como outras empresas de tecnologias (Netflix é o melhor exemplo, novamente), essas “bancas digitais” se vendem como um modelo viável para comercializar seus produtos enfrentando a ilegalidade. Além da comodidade, claro. É fácil, rápido e prático.
 Para termos uma idéia de como a internet está mudando esse paradigma na relação custo,  plataforma e fornecimento, o  72º Festival de Veneza decidiu oferecer parte do catálogo de filmes da mostra deste ano para ser assistido por espectadores de todo o mundo em streaming, em um sistema chamado Sala Web, vendendo “ingresso virtual”. Ou seja, você pode assistir a um filme do festival em casa, sem precisar ir à Itália. E emissoras como HBO e Telecine oferecem pacotes com seus catálogos.
São tantas opções, somadas ao aumento da renda dos brasileiros, que está havendo um processo de mudança na já falada relação do consumidor com a pirataria. Hoje, muitos preferem pagar barato por um produto de qualidade, do que gastar com outros de origens duvidosas. Já repararam como diminuiu a quantidade de tabuleiros de pirataria pelas ruas? É um dos sintomas mais claros e objetivos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Uma cidade com as veias abertas




Para Nic Pizzolatto, não há um único fiapo de esperança para o ser humano. E ele deixa isso bem claro com esta segunda temporada de True Detective. Ok, na primeira o final teve rompantes de felicidades e conformismos. Mas dessa vez, não temos tempo para alívios. Para o autor, vivemos em uma sociedade que esconde seus podres atrás de falsos moralismos e rompantes de hipocrisia, sob o manto falacioso do bem comum. Qualquer tentativa de quebrar esse ciclo é paga com a morte.
Ao ampliar o leque de personagens e subtramas, Pizzolatto amplifica essa sensação de angústia e desesperança. O ponto de partida da história é o mesmo: um corpo com marcas de um assassinato cometido com crueldade. Mas as semelhanças com o ano inicial da série terminam ai. Enquanto no ano passado o roteiro resvalava no sobrenatural, aqui o realismo finca o pé com força no pescoço.
Outra diferença está na direção: Cary Fukunaga deu unidade às imagens no primeiro ato. Neste segundo ano, vários diretores se revezaram por trás das câmeras, deixando a condução irregular, mas ainda digna de muitas cenas bem conduzidas, como a do tiroteio sangrento no final do quarto episódio. Até então, acompanhar a trama é um exercício de paciência. O roteirista desenrolar a narrativa com toda a calma necessária e exigindo plena atenção de quem assiste.
É uma espécie de mal necessário, pois tudo que acontece lá na frente é um reflexo dessa construção linear (lembrando, novamente, mais uma diferença com o ano inicial, que apoiava sua estrutura em flashbacks). É claro que há momentos pelos quais parece que estamos perdidos nos acontecimentos, mas, no fim, é tudo uma questão de “não tente entender, apenas sinta”, como diria Jean Luc Goddard. Uma característica claramente influenciada pelos filmes chamados Noir das década de 40 e 50 (também homenageados em filmes como Chinatown, Blade Runner e Los Angeles - Cidade Proibida). Tramas complexas, personagens sem caráter e anti-heróis cheios de dúvidas são algumas fases desse gênero policial.
 O único senão da produção é a participação de três personagens listados como principais (e não vou dizer quais são), que parecem deslocados do resto da trama. Um deles gera tão pouco interesse, que sua saída brutal da temporada empalidece bastante e não gera o impacto necessário. Entretanto, os atores compensam isso. Rachel McAdams e Colin Farrell estão competentes como sempre, mas é Vince Vaughn a grande surpresa. Acostumado a papéis em comédias, o ator consegue transformar seu mafioso em um personagem desesperado e violento, como um animal selvagem encurralado em uma armadilha. Só Vaugh já valeria assistir a série. Mas True Detective é mais. Muito mais. A pergunta é: estamos prontos para mais uma temporada?. A conferir.