sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Um filme de terror

As luzes já haviam sido acesas e uma boa parte do público já tinha levantado para sair da sala de cinema. Mas eu ainda estava lá, sentadinho no meu lugar, com a respiração presa e os olhos fixos na tela, os créditos passando. Mentalmente, revi o filme em questão de segundos e cada lembrança só fez reforçar o choque, o impacto que a viagem da protagonista ao seu subconsciente me causou. A forma como seus medos, inseguranças, limitações e força de vontade para superá-las ganham vida, literalmente, tornou Cisne Negro uma das melhores produções de terror a que já assisti.
E cuidado para não confundir. Uma unha quebrada, a pele do dedo sendo arrancada... São situações aflitivas, sem dúvida, mas não é aí que está o terror. Tudo é muito sutil. O terror está, principalmente, no olhar de Nina (Natalie Portman) ao perceber o quanto é infantilizada, que não sabe lutar pelo que deseja, enfim, que não está preparada para enfrentar o mundo. Um medo que cada um de nós já sentiu em algum momento. Medo de arriscar, do desconhecido, medo de viver.
Trata-se, portanto, de um tema comum a vários filmes, um processo de crescimento pessoal, superação. O diferencial aqui não é o conteúdo, dramático por natureza, mas a forma, que é o que, de fato, o transforma em um thriller: sentimos na carne a deterioração psicológica de Nina e a sua consequente “mudança” de atitude, fisicamente falando, numa verdadeira fusão. Não há divisória. O que ela sente e pensa é mostrado, é literal. É simplesmente perturbador.
Um detalhe interessante é o uso de espelhos como personagens da narrativa. Recurso barato e recorrente em filmes assumidamente de terror (hoje em dia um clichê), os espelhos aqui não cumprem apenas a função de “assustar” o espectador, mas interagem com a protagonista e nos dão a dimensão de como está o seu desenvolvimento, tanto na questão puramente técnica, da dança, como no que diz respeito à sua personalidade, vista dos mais diversos ângulos.
Isso é genial pelo simples motivo de que só com espelhos, com múltiplos olhares, tenhamos uma noção exata (talvez nem dessa forma) de quem somos realmente. E é assim com qualquer pessoa. O normal durante a vida é potencializarmos apenas algumas das nossas características e nunca conhecer até onde podemos chegar. Nosso lado escuro (e todos têm) grita, pede pra sair, mas o reprimimos, temos medo do que possa acontecer se o soltarmos. Isso é terror.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Era uma vez...

Dois adolescentes jogados num sofá. Uma olhada rápida no ambiente permite dizer que ele está em total simbiose com seus ocupantes: tudo é muito feio e sujo. Toda a atenção é voltada para o aparelho de televisão, com o som nas alturas. Puro metal. Durante a exibição de clipes, a dupla destila seus comentários. O humor negro, a acidez e o palavreado chulo imperam. Eles riem de suas próprias tiradas. Uma risada contagiante. Mas, quando um dos garotos derruba sua coca-cola no controle remoto, algo acontece. A TV parece entrar em curto e fica saltando de canais. Sintoniza a Al-Jazira, a CNN, a RAI, filmes em pay-per-view e, por fim, para, sem possibilidade de troca, no canal 24h do Big Brother Brasil. Os garotos, Beavis e Butt-Head, se entreolham e exclamam: “WTF”!
Como levantar do sofá para tentar consertar qualquer que tenha sido o problema não era sequer uma alternativa e o programa já mostrou, em menos de um minuto, dez closes de peitos e bundas, os garotos ficaram assistindo, compenetrados. O idioma diferente era o de menos, já que a linguagem corporal apresentada era universal. Os olhos esbugalhados a cada aparição feminina, seguida de uma rápida ida ao banheiro, claro, contrastavam com a revolta pelo tempo desperdiçado com homens se gabando de seus músculos. E não era porque o heavy metal cessara que os comentários mordazes tiveram o mesmo destino.
No começo, os jovens se limitavam a relacionar tanta testosterona com a pequenez do órgão sexual e do cérebro dos homens, além de fantasiar o que eles fariam com a “abundância” de (as) mulheres vistas na tela. As festas diárias naquela casa os fizeram planejar viagens ao Brasil para participar de toda a sacanagem, embora a música tocada não os agradasse nem um pouco. Numa das raras saídas da frente da TV, apenas para reabastecer o estoque de junk food, um deles teve a ideia de pesquisar no Google sobre o programa. Em um site, leram uma reportagem que os deixaram estarrecidos: o Big Brother era um reality show levado a sério, que existia em diversos países, não sendo apenas um entretenimento feito para moleques como eles, que precisavam liberar a sexualidade.
A descoberta, aliada ao fato de que o vencedor ganharia uma bolada em dinheiro, de tão absurda que era, fez com que Beavis e Butt-Head se animassem em querer participar do programa, um verdadeiro culto à imbecilidade e, por isso mesmo, um prato cheio para a dupla. Onde mais as pessoas se deixam enganar por montagens, como num videoclipe (e disso eles entendiam), e compram isso como “realidade”, premiando, na maioria das vezes, um completo idiota? Eles poderiam fazer fortuna, sem dúvida. Era só colocar a mochila nas costas e percorrer os países que exibiam o programa para se inscrever e faturar uma grana, já que estavam há tanto tempo no limbo.
Assim, primeira passagem na mão e claro que para o Brasil, já que eles não desperdiçariam a chance de ficar três meses numa casa ao lado das mulheres mais belas do planeta, só na curtição, sem fazer nada, ser chamados de “heróis” e, quem sabe, voltar aos holofotes, emplacando uma série ou novela por aqui. E eles quase conseguiram o seu intento. Mas o criador da dupla, Mike Judge, pressentiu o que os seus personagens estavam tramando e resolveu resgatá-los. Dar-lhes uma nova chance, novos episódios do próprio programa após anos de “desemprego”. A proposta era irrecusável e a viagem ao redor do mundo foi adiada. Afinal, é certo que esse tal de Big Brother terá vida longa, oportunidade não vai faltar. Hehehe, hehehe, hehehe...






segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Framboesa de Ouro

A coordenação do Framboesa de Ouro (Razzies Awards) divulgou a lista dos indicados a piores do ano de 2010 no mundo do Cinema. o Razzies é uma paródia ao Oscar e a cerimônia de premiação acontece no dia anterior aquela premiação de Hollywood.

Confira os indicados:

Pior filme
- "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- "O último mestre do ar"
- "Os vampiros que se mordam"
- "Sex and the city 2"
- "Caçador de recompensas"

Pior ator
- Jack Black - "As viagens de Gulliver"
- Gerard Butler - "Caçador de recompensas"
- Robert Pattinson - "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Taylor Lautner - "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Ashton Kutcher - "Par perfeito" e "Idas e vindas do amor"

Pior atriz
- Jennifer Aniston - "Caçador de recompensas" e "Coincidências do amor"
- Miley Cyrus - "A última música"
- Kristen Stewart - "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Megan Fox - "Jonah Hex"
- Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis e Cynthia Nixon - "Sex and the city 2"

Pior ator coadjuvante
- Billy Ray Cyrus - "Missão quase impossível"
- George Lopez - "Missão quase impossível", "Idas e vindas do amor" e "Marmaduke"
- Dev Patel - "O último mestre do ar"
- Jackson Rathbone - "O último mestre do ar" e "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Rob Schneider - "Gente grande"

Pior atriz coadjuvante
- Cher - "Burlesque"
- Liza Minnelli - "Sex and the City 2"
- Nicola Peltz - "O último mestre do ar"
- Barbra Streisand - "Entrando numa fria maior ainda com a família"
- Jessica Alba - "The killer inside me", "Machete", "Idas e vindas do amor" e "Entrando numa fria maior ainda com a família"

Pior diretor
- Jason Friedberg e Aaron Seltzer - "Os vampiros que se mordam"
- Michael Patrick King - "Sex and the City 2"
- M. Night Shyamalan - "O último mestre do ar"
- David Slade - "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Sylvester Stallone - "Os mercenários"

Pior roteiro
- "O último mestre do ar"
- "Entrando numa fria maior ainda com a família"
- "Sex and the City 2"
- "Vampiros me mordam"
- "A saga Crepúsculo: Eclipse"

Pior casal ou elenco
- Jennifer Aniston e Gerard Butler - "Caçador de recompensas"
- O rosto de Josh Brolin e o sotaque de Megan Fox - Jonah Hex
- Todo o elenco de "O último mestre do ar"
- Todo o elenco de "A saga Crepúsculo: Eclipse"
- Todo o elenco de "Sex and the City 2"

Pior sequência, versão ou paródia
- "O último mestre do ar"
- "Fúria de titãs"
- "Sex and the City 2"
- "Vampiros me mordam"
- "A saga Crepúsculo: Eclipse"

Pior uso de 3D
- "Cats and dogs 2: The revenge of Kitty Galore"
- "Fúria de titãs"
- "O último mestre do ar"
- "Nutcracker 3D"
- "Jogos mortais 7 3D"

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Orgulho e Preconceito e Zumbis


No início do século dezenove, a aristocracia inglesa ditava as regras e o jogo de aparências era mais valorizado do que nunca. O papel das matriarcas, por exemplo, era quase unicamente arrumar bons pretendentes para suas filhas e casá-las o mais depressa possível. Essa missão, aos olhos de hoje, causa repulsa. A vontade que dá é de mandar um exército de zumbis para se banquetear com os cérebros, não só dessas mães, mas de todos que compactuam com ideias do tipo, além de outras arrogâncias, sempre ligadas ao status social.
Vontade essa, em parte, saciada pelo escritor Seth Grahame-Smith, que fez uma releitura trash do romance de Jane Austen, Orgulho e Preconceito, inserindo mortos-vivos na narrativa, que se transforma, então, um uma deliciosa comédia de costumes de humor negro. Apesar de ter mantido 85% do texto original – até por isso mesmo, pensando bem -, o trabalho deve ter sido bastante exaustivo. Afinal, a intenção não era descaracterizar, e sim mudar a contextualização. Portanto, se você estiver familiarizado com a história, o prazer de ler será maior ainda.
A famosa família Bennet, que já passou por tantas encarnações no cinema, na televisão e no teatro, ressurge na literatura com uma característica adicional: a habilidade nas “artes mortais”. Todas as cinco herdeiras foram enviadas à China para se tornarem guerreiras e ajudarem no combate aos “não-mencionáveis”. A contragosto da mãe, é claro, que prefere vê-las bordando e assumindo suas posições submissas em relação aos maridos. Voltando ao que disse lá no primeiro parágrafo, acho que só não rolou uma licença poética mais aprofundada aqui, porque os zumbis não achariam seu precioso cérebro nesta cabeça oca.
É legal notar a forma como o “co-autor” consegue tratar o preconceito nesses novos elementos. Como a família Bennet é simples, ir para a China estudar com monges guerreiros é visto sob uma ótica desprezível, já que o Japão goza de melhores conceitos, com seus ninjas. Isso, claro, é somente na teoria, já que Elizabeth Bennet, a nossa heroína, é uma das mulheres mais letais de toda a Inglaterra. E, tenho que dizer, imaginá-la partindo pra cima do Sr. Darcy, dos zumbis e de qualquer um que ouse desafiar a sua honra é de rolar de rir, pois essa atitude é, simplesmente, uma extensão do seu temperamento.
Se a entrada dos elementos sobrenaturais funciona como chamariz de vendas – o que, de fato, ocorreu, com o livro no topo das listas e, inclusive, com direitos vendidos ao cinema -, a grande sacada foi não se escorar só nisso e fazer o trabalho com responsabilidade. Afinal, todos sabem que onde há zumbis no meio, a probabilidade de existir uma crítica social, à la George Romero, é grande. Era só se aproveitar disso. Assim, se a leitura original, embora reflexiva, já era leve e gostosa, as decapitações e demais banhos de sangue adicionam uma boa dose de diversão.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Melhores e Piores de 2010

Na minha opinião, e aproveitando que o ano terminou, estes foram os melhores e piores de 2010:



A Ilha do Medo

Muita gente não gostou desta homenagem de Martin Scorsese aos antigos suspenses psicológicos. Para mim, é o melhor do ano. Scorsese imprime um exercício de cinema ousado e ameaçador. A cena de Leonardo Di Caprio amparando os filhos mortos no lago é de gelar a espinha.



O Segredo dos Seus Olhos

Juan Jose Campanella cria uma narrativa complexa sobre Amor e Morte em um filme impecável. E ainda conta com o talento de Ricardo Darin. Ainda espero um filme brasileiro atual com essa maturidade cinematográfica.



Bastardos Inglórios

O plano-sequência inicial com o Coronel Hans Landa já mostra o que Quentin Tarantino é capaz. Mas que tudo, um libelo ao Cinema. A Cena da imagem projetada na fumaça é algo de gênio.



Toy Story 3

A Pixar não erra uma. Bom para nós apaixonados por boas histórias. A empresa fecha a saga dos simpáticos brinquedos de maneira brilhante. Quase impossível conter as lágrimas.



A Origem

Cris Nolan é um excelente cineasta e mostra que apesar da história confusa e nem tanto original, sabe o que faz detrás das câmeras. A direção de arte e os efeitos especiais são o grande diferencial, ainda, do filme.



Kick – Ass

A adaptação da Hq é a plataforma perfeita para o exercício de sadismo de Mathew Vaughan. Nicolas Cage está bem a vontade como o pai da fascinante Hit-Girl. Quem não se divertiu com a jovem de 11 anos decepando membros de bandidos com uma espada, não sabe o que é diversão.



Zumbilândia

Uma homenagem aos filmes de zumbi feito para fãs como eu. E ainda tem Woddy Harrelson, tresloucado, e Bill Murray.



À Prova de Morte

Belas Mulheres. Carros. Pés. Kurt Russel. E Tarantino inspirado. Fechou a conta.




A Estrada

Angustiante e pesado, este filme não alivia a tensão em nenhum momento. A história do pai tentando cuidar do filho em um mundo destruído é de dar um nó na garganta.

Os piores:



Skyline

Infelizmente não foi um bom ano para a ficção científica. Três porcarias chegaram aos cinemas, a começar por esta infeliz produção dos irmãos Strause, que cometeram crime parecido em Alien Vs Predador. Péssimo roteiro, péssimos atores e uma direção ridícula. Só os efeitos especiais escapam e olhe lá.



Pandorum

O que parecia uma promessa nos 15 primeiros minutos se torna uma cansativa correria por corredores escuros, com criaturas ridicularmentes maquiadas. E ainda desperdiça o talento de Ben Foster e Dennis Quaid.



Predadores

Cheio de furos no roteiro e ainda com a direção burocrática de Nimrod Antal. E nem atores legais como Adrien Brody, Laurence Fishburne e Danny Trejo conseguem dar um gás nesta porcaria.



A Ilha dos Mortos

Chega, mestre George Romero. Já pode se aposentar...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Aliens malvados e zumbis de TPM

Essa combinação explosiva aí do título foi arquitetada pelo diretor Jake West. Sem puxa-saquismo, o cara pediu pra ser bom e extrapolou. Há muito tempo não ria tanto em filmes do gênero. Politicamente incorreto, tosco, sanguinolento, criativo e com humor negro afiado. Esses são os atributos da filmografia do cidadão. Podem caçar pelas locadoras ou pela internet, sem medo: “Evil Aliens – Um novo contato” e “Doghouse”. Diversão garantida.
O primeiro é de 2005 e mostra a que veio logo na cena inicial. Um casal está fazendo saliência num cemitério. Para quem é familiarizado com filmes de terror, uma péssima idéia. Enquanto a garota está preocupada com os irmãos – uns caipiras fortões – que podem surpreendê-los, quem dá o ar da graça são uns ETs invocados, com fantasias à la Predador, que não guardam nenhuma piedade com os jovens assanhados. Pelo contrário. Os alienígenas se mostram implacáveis e o nível de brutalidade pode assustar os mais sensíveis.
Depois desse prólogo impactante, somos apresentados à trama, inacreditavelmente absurda e, por isso mesmo, hilária. Uma repórter de um programa de televisão sobre extraterrestres está prestes a ser demitida, devido os baixos índices de audiência da atração. A única saída: entrevistar um ET. E lá vai a moça com a sua equipe de filmagem para o interior da Escócia, onde uma mulher – aquela da saliência – diz estar grávida de um alien.
Para garantir a veracidade da reportagem, um especialista no assunto foi junto. E ele é o melhor do filme. Um nerd de carteirinha, ele se enerva com as palhaçadas da trupe televisiva, que ignoram tudo o que é relacionado com ufologia. Não é à toa que ele se emociona quando comprova que existe vida fora da Terra e, inclusive, realiza uma fantasia sexual intergaláctica num ponto crucial da história. No meio disso tudo, a guerra. As cenas de morte, embora com os dois pés no gore, tendem ao pastelão. Fora as referências a clássicos como “Uma noite alucinante” e "O massacre da serra elétrica". Simplesmente sensacional.
Mas o que era bom, ficou melhor quatro anos depois, quando West lançou “Doghouse”. Antes de falar do filme, um aviso às mulheres: ele é misógino até a alma. E como hipocrisia não é meu forte, gargalhei muito, o que me valeu não só olhares de reprovação, como vários beliscões da Ingrid. Mas a dor não chegou nem aos pés do tanto que eu me diverti. O ideal, portanto, é reunir só a rapaziada pra assistir ao filme. De preferência com uma cervejinha gelada para acompanhar, depois do futebol de sábado à tarde.
A história é a seguinte: após o divórcio, homem fica devastado e os seus amigos o levam para passar o fim de semana numa cidadezinha do interior da Inglaterra. Lá, a proporção de mulheres para cada homem é de 4 pra 1. Assim, eles prevêem muita curtição. Só não contavam com um vírus lançado ali, que transformou todas elas em zumbis, dando uma conotação mais realista para a chamada guerra dos sexos.
Sob a ótica masculina, estão lá os estereótipos: a mulher com bobs na cabeça, a noiva, a ex-namorada... Todas furiosas, em estado de eterna TPM, emasculando qualquer tentativa de descontração ou felicidade dos homens. O timing da comédia não cai um segundo sequer e a carnificina também rola solta. E West não está nem aí para a polêmica, a ponto de inventar um controle remoto para as zumbis. É mole? Ao final, uma certeza: caras bonzinhos, daqueles que se abaixam muito para suas companheiras, não têm vez. A idéia é simples: tem que mostrar quem manda na “casa”. Mais do que uma questão sexista, é a própria sobrevivência que está em jogo.
Ainda vou procurar pelos outros quatro filmes de Jake West. Um deles, chamado “Razor Blade Smile”, anterior a “Evil Aliens”, ganhou vários prêmios destinados a produções “B”. Acho que não tenho como me decepcionar. Vou me preparar para mais risadas.



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Radar Trash Recomenda: Razorback, 1984



Pode um filme com javali gigante, em que o próprio animal quase não aparece e mata somente em off-screen, ser divertido? A resposta é sim. Razorback é um típico filme B que se aproveita dos desertos da Austrália para fazer um Road-movie-australiano. São filmes que revelaram o talento insano de diretores do país, como Russel Mulcahy e Brian Trenchard-Smith e mais tarde ficaram famosos com os exemplares de luxo da franquia Mad Max, de George Miller. Estava procurando um bom exemplar do cinema das bandas da Oceania para indicar, e lembrei deste clássico, que chegou a passar no SBT como As Garras do Terror.



Mulcahy dirigiu esta pérola obscura pouco antes de ganhar os americanos em Highlander e depois se bandear a fazer bobagens por dinheiro, como Resident Evil 3. E como acontece com películas de animais gigantes assassinos, a história é o que menos importa: Um fazendeiro quer vingar a morte do neto pelo selvagem animal ao mesmo tempo que jornalista desaparece no deserto, levando o marido canadense ao país. Pronto.

Daí por diante, há uma crítica à caçada ilegal de animais, como cangurus e os próprios javalis, para fábricas de alimentos. Além caipiras feios, sujos e malvados... Logos nos minutos iniciais, você tem um choque com o primeiro ataque e depois, aos 20 minutos, com uma morte de um personagem que seria importante também.

O diretor explora a bela paisagem e as luzes do deserto para criar uma bela suposição de imagens e uma fotografia surpreendente. Só esqueça a trilha sonora datada, os diálogos clichês e as atuações péssimas. Apenas se concentre na capacidade do diretor de Highlander de surpreender com poucos recursos e uma câmera nos ombros.




Afinal, transformar a cara de um boneco e um javali comum filmado em ângulos que o tornam gigante e torná-lo uma ameaça real já um mérito e tanto. De resto, apenas paredes quebradas e um rugido ameaçador. Pronto. Bem mais real que qualquer criatura de CGI.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

I've got a feeling

"Chove chuva...”. Essa foi a senha para esquecer de vez o frio, a fome, o cansaço, os pés latejando e a costa em frangalhos de quem ficou por volta de dez horas na fila. Sir Paul McCartney entrou no palco, surpreendeu logo de cara com a mudança de repertório, mandando ver com Magical Mistery Tour, e brincou com a galera, citando Jorge Ben Jor como quem diz: “é hora do show, esqueçam tudo e vamos curtir”.
Pedido feito e atendido prontamente. Afinal, ninguém ali ousaria dizer não ao ídolo. Para aquelas 64 mil pessoas na noite de segunda-feira no Morumbi, McCartney era rei. Entre as músicas, soltava seus gritos e interjeições para, em seguida, ouvir a resposta do público, que repetia tudo. Até imitação de cachorro estava valendo. E nem tinha como ser diferente, todos estavam vivendo em outra dimensão. O momento era mágico: tínhamos um Beatle ali, a poucos metros de nós. Como descrever isso?
E Paul correspondeu a todas as expectativas. Do alto dos seus quase setenta anos, esbanjou vitalidade, simpatia – a plateia estourou em risos quando ele se assustou com um berro de uma fã e o retribuiu na mesma intensidade - e, naturalmente, talento. Deu aula de virtuosismo no baixo, na guitarra, no piano, no banjo... E, para completar, estava muitíssimo bem acompanhado. Que banda era aquela? “Maravilhosos”, parafraseando o bom português de Macca.
Cada um no palco mostrou o porquê de ter sido escolhido para tocar ao lado de uma das maiores lendas do rock, numa parceria que já dura nove anos. Os guitarristas Rusty Anderson e Brian Ray (que alternou com o baixo) impressionavam com seus solos; Paul Wickens (diretor musical) era mais discreto, mas não menos eficiente nos teclados. Porém, a grande atração da noite, fora o próprio Paul, claro, era o brilhante baterista Abe Laboriel Jr. Ele demonstrou uma entrega total no show e ganhou o público com seu desempenho e dancinhas que fazia quando não era exigida a sua participação no instrumento. O que levou Sir Paul a perguntar, em tom ironicamente surpreso: “Did you like Abe Laboriel?”.
Li alguns comentários no Twitter, principalmente do jornalista Ricardo Noblat, sobre certa “pobreza” na produção do show. Sinceramente, é querer aparecer. E justificar opiniões contrárias a essa como “cegueira de fã” é não ter argumentação. A pobreza aí é de espírito. E se ele não ficou arrepiado em “Live and Let Die” – fiquei completamente rouco depois dessa música - realmente não mereceu ter assistido ao show. Mas, ainda assim, que seja, não briguemos por isso. Pois McCartney poderia se apresentar sem estrutura alguma que o show valeria a pena do mesmo jeito.
Cada canção era um momento único. A Ingrid, que soltou a voz efusivamente até em “Ob-la-di Ob-la-da”, que ela não suporta, segurou as lágrimas até soarem os primeiros acordes de “Got to get you into my life”. Aí não ofereceu mais resistência. Já em “My Love” - que Paul escreveu para a sua “gatinha linda, mas que agora era dedicada a todos os namorados” – nada melhor do que abraços e beijos para comemorar o aniversário de namoro (data perfeita, não?). Só faltou “Maybe I’m Amazed” na sequência, mas essa eu canto no ouvidinho dela, sem problemas (ah, e ela também me deve uma costa nova por tê-la carregado em algumas horas para ver melhor esse “velhinho enxuto”, hehehe).
O cenário perfeito também aconteceu em “Blackbird”. Foi quando a chuva deu uma trégua e a lua cheia surgiu, meio sombria, entrecortada por algumas nuvens. Isso sem contar com as homenagens a George Harrison e John Lennon, com “Something” e “Here Today”, respectivamente, que fizeram o público fechar os olhos, erguer as mãos e prestar reverência. Isqueiros acesos na pista e pulseiras coloridas nas arquibancadas completaram o bonito espetáculo.
Ao final, uma certeza: esse show foi, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes da minha vida. Antes, durante e depois. A agonia para comprar ingressos, os problemas pré-viagem, a espera na fila, a tia de João Pessoa, que parecia ter vindo direto de Woodstock, e que, com a maior cara de pau, furou na nossa frente, mas ninguém se queixou de tão engraçada que ela era; a chuva ininterrupta desde 14h, os pulos e a euforia rock’n’roll em “Helter Skelter”, “Back in the USSR” e “Day Tripper”, os corpos exaustos jogados no chão após os dois bis, além da volta para o hotel, molhados e mancando. Tudo valeu a pena. Feliz, muito.

“I've got a feeling, a feeling deep inside / Oh yeah, Oh yeah (that's right)
I've got a feeling, a feeling I can't hide
Oh no. no. Oh no! Oh no
Yeah! Yeah! I've got a feeling. Yeah!”









quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Com vocês, as Trash Dolls


A empresa americana Arsenic & Apple Pie (www.trailertrashdoll.com) lançou, em 2005, uma linha de bonecas nada convencional: as Trash Dolls, que mandam para o inferno as versões politicamente corretas da Barbie.
O doido que gosta de colecionar essas coisas pode escolher entre dois modelos, a Trash Talkin Turleen ou a Trailer Trash Doll. A primeira é uma americana "sofisticada", um modelo de mãe trabalhadora; a segunda, uma moradora de trailer com um Q.I. de não fazer inveja, segundo o site da empresa.
A Turleen é mãe de sete filhos e está grávida de mais um. Depois de horas de trabalho duro como garçonete, ela consegue passar horas de qualidade com seus filhos. A Trailer foi concebida num banheiro de posto de gasolina e criada à base de sanduíches de carne, óleo, queijo e cerveja.
Para finalizar, a boneca Trash Talkin Turleen diz algumas frases como: "Quero dose dupla, estou bebendo por dois" e "Se o trailer estiver balançando, não bata na porta". Só rindo mesmo... (Com informações do portal Terra)

The Walking Dead - Primeiras impressões

As portas do inferno foram abertas mais uma vez, dando passagem aos mortos, que voltam à vida para saciar sua fome de carne humana. Como, quando, onde e por que os ataques começaram são perguntas sem resposta. E, sinceramente, ninguém dá a mínima pra isso. Apenas uma coisa está em jogo: sobrevivência. Pronto, esse é o básico para qualquer produção sobre zumbis, não importa a mídia escolhida para se trabalhar. No caso de The Walking Dead, primeiro os quadrinhos, agora a TV.
A trama criada por Robert Kirkman não foge à regra. No comando de um grupo de sobreviventes de um apocalipse zumbi, o policial Rick Grimes cruza os Estados Unidos em busca de um local seguro para viver. E ainda há um clássico detalhe envolvido: o protagonista estava em coma no hospital e, após despertar, terá que se adaptar ao novo e perigoso mundo, enquanto procura pela esposa e pelo filho.
Não comecei ainda a ler os quadrinhos, cujos números de 1 a 70 já estão no meu computador – a série está na edição 78, se não me engano. Mas assisti aos dois primeiros episódios transmitidos em canal fechado no Brasil – Fox. O resultado? A cada cena, me vicio. Tenso, dramático e complexo. Esse universo não poderia ganhar vida de outra forma. Não é à toa que a televisão vem superando o cinema qualitativamente nos últimos anos.
Apoiada num forte esquema de marketing, além, é claro, da presença de um craque como Frank Darabont nos bastidores (produção e roteiro), a estreia de The Walking Dead foi aguardada ansiosamente por fãs do gênero de todo o mundo. E quando a hora chegou, não houve desapontamentos – uma ressalva apenas aos cortes que a Fox fez na exibição por aqui: 90 minutos nos EUA e 56 minutos no Brasil. Ridículo e sem explicação lógica.
Ainda assim, a paixão por esses corpos sangrentos e em decomposição acontece à primeira vista (macabro isso, né? Hehehe). Se a série teve algum defeito até agora, juro que não percebi. Dirigido pelo mestre do terror, Tobe Hooper (O Massacre da Serra Elétrica, Poltergeist), o episódio piloto possui uma estrutura cinematográfica bem definida, tanto na progressão dramática quanto no ritmo ágil empregado nas cenas de suspense.
Outro aspecto interessante é o desenvolvimento dos personagens. E isso será legal de acompanhar, pois na TV essa relação personagem-espectador tende a se tornar “íntima”. É inevitável a cumplicidade que surge daí – vide o que aconteceu em Lost. E ouso dizer que mais do que questões como roteiro, direção ou efeitos visuais, é nessa empatia com o público que reside o sucesso de uma série de televisão. Afinal, você não vai torcer, seja contra ou a favor, por temporadas a fio, se não se importar com o personagem.
The Walking Dead começou bem, muito bem. E mostrou a que veio logo na primeira cena, quando Rick dá de cara com uma criança zumbi e mete um balaço na cabeça da menina. Ela ilustrou perfeitamente o que esperar da série. O tempo da inocência ficou para trás. A humanidade regrediu. Os instintos primitivos estão em voga. A barbárie impera. É a arte imitando a vida. Só adicionando os zumbis...