domingo, 21 de julho de 2013

Evil Dead - A Morte do Demônio (2013)


Todo remake tem um problema que começa já nos créditos iniciais: a inevitável comparação com o produto original. E na ampla maioria das vezes, a refilmagem se mostra uma obra tola e desnecessária (Todos os anos hollywood nos brinda com uma penca de porcarias, vendidas como readaptações, mas que são meros caça-níqueis).

Dito isso, podemos dizer que A Morte do Demônio é um filme menor comparado com o original de Sam Raimi, lançado em 1981. Raimi não tinha orçamento, mas é um cara criativo e conseguiu transformar um enredo trash em um clássico dos anos de 1980, graças ao seu talento em arrancar risos em situação esdrúxulas e apelar para muito gore, ao contar a história de cinco amigos que decidem passar um fim de semana em uma cabana na floresta, mas acabam libertando uma entidade demoníaca, graças ao feitiço contido no Necronomicon, o Livro dos Mortos.

Afora as comparações, o filme deu um ar mais de urgência à história, se aproximando da ótica atual do cinema de horror (mais choque e menos alívios cômicos). Há sustos e sangueira em profusão. O estreante diretor Jede Alvarez (do curta Ataque de Pânico) mostra que tem talento e noção de profundidade. Ele se mostra seguro nas cenas que exigem maior envolvido de quem assiste o filme.




Se mostrando mais uma continuação que uma refilmagem (o sangue na entrada do sótão é um indicativo disso), A Morte do Demônio é uma boa diversão de final de semana, para quem gosta de um filme de terror bem feito. A lamentar apenas o roteiro, cheio de buracos (situações mal explicadas e o velho estereótipo na criação dos personagen) e os atores, que em nenhum momento esbanjam o carisma de um Bruce Campbell, o eterno Ash da versão original.  Falando nele, Assista até o final dos créditos e tenha uma pequena surpresa...

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O bom e velho Schwarza


Quando Martin Riggs tomou para si a clássica frase de seu parceiro Roger Murtaugh e declarou estar “muito velho para essa droga”, ficou claro que ali, com Máquina Mortífera 4, no final da década de 90, um ciclo se aproximava do fim. Mel Gibson, um dos principais heróis de ação do cinema, ainda faria alguns filmes que exigissem grande esforço físico, como O Patriota, mas nunca mais como na série que, ao lado de Mad Max, fez a sua fama. Mas por que falo de Gibson se no título da coluna é Arnold Schwarzenegger o citado? Porque apesar do “recesso” de oito anos como político, Schwarza, ao contrário de Riggs e do próprio Gibson, não está nem aí para a idade e continua na ativa, arrastando seu corpo robótico e sexagenário para sessões de tiros, pancadaria e muito bom humor. 
Ao lado de Bruce Willis e Stallone, Schwarzenegger resiste à aposentadoria dos tipos durões por um motivo muito simples: a limitada capacidade de interpretação não lhes oferta uma variedade de papéis em Hollywood – Willis ainda escapa um pouco desse estigma, tem mais recursos como ator. Em compensação, dê-lhes uma arma e um punhado de frases de efeito que o resultado, provavelmente, será um sucesso de bilheteria. Os Mercenários, que já virou até franquia, está aí para comprovar a tese. Já o bom humor, que sempre esteve presente (principalmente em Schwarza, pois Stallone vez ou outra apostava no drama), agora é fundamental. Os filmes não são somente de ação, são comédias de ação, no melhor estilo True lies, O último grande herói e Um tira no jardim de infância. 
O último desafio, o mais recente do Schwarza, entra nesse rol. Há tempos não ria tanto em um filme. Para se ter uma ideia do tom nonsense e de todos os seus clichês e previsibilidade, ele já começa com um policial comendo donuts. Daí para saber quem vai morrer e como será o embate final é um pulo. Além disso, tem a participação de Johnny Knoxville, a “mente brilhante” por trás de Jackass. Ora, um filme que abre espaço considerável a um cara cujo ápice de atuação foi ter deixado um jacaré morder a sua bunda tem mesmo que abraçar a sua irrelevância, o seu lado trash. E tem Rodrigo Santoro também, que deve ter aceitado o papel só mesmo para tirar uma casquinha da Jaimie Alexander, já que ele é conhecido por priorizar escolhas artísticas. 
Enquanto isso, Schwarzenegger faz o que dele se espera como xerife de uma cidadezinha de fronteira que tem a missão de parar o Pablo Escobar da nova geração, que está em fuga para o México: dá uns esporros por telefone no chefe do FBI, surge na última hora para salvar os seus ajudantes, solta as suas pílulas de sabedoria, demonstra emoções distintas sempre com a mesma expressão facial e parte para a porrada contra o vilão, sendo mais eficiente do que toda a inteligência norte-americana e equipes da SWAT fortemente armadas. Juro e tenho testemunha de que levantei da cama e aplaudi de pé a cena em que Schwarza frustra de vez o plano do mafioso, se tornando, de fato, o último desafio, como diz o título do filme. Ah, a tosquice, ela não tem limites... Nesse caso, ainda bem.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Mais vivos do que Nunca





(Texto publicado originalmente no Diário do Pará, Caderno Você, edição de 13/07/2013)


Você percebe que algo faz parte da cultura Pop quando dá de cara com uma propaganda de brinquedos, em um canal de fechado, com estes personagens. Mas, dessa vez não são os personagens de Toy Story a percorrerem o imaginário da garotada. Nesse caso, são zumbis. Isso mesmo. Os putrefatos comedores de carne agora são pequenos e simpaticos bonecos para você colecionar. E eles se espalharam como uma epidemia: estão em grandes lançamentos do cinema, como Guerra Mundial Z, Meu Namorado é um Zumbi e Resident Evil; nos quadrinhos( o fenômeno The Walking Dead); na literatura (Orgulho e Preconceito e Zumbis) e nos videogames (Resident Evil, Dead Island e Zombie U).

Mas, nem sempre foi assim. Desde que Bela Lugosi estrelou o filme Zumbi Branco (1932), até a década de 90, o subgênero de filmes com zumbis ficou relegado ao cinema chamado B e uma pequena legião de fãs. Fanáticos esses trazidos por um sujeito baixinho e sorridente chamado George Romero, que decidiu que seria cineasta e faria algumas obras primas do cinema trash, principalmente a sua aclamada trilogia do terror: A Noite dos Mortos Vivos (1968, o pioneiro), O Despertar dos Mortos (1978) e o Dia dos Mortos (1985). O maior interesse por Romero foi o fato de suas criaturas serem mais que comedoras de carne. Cada película trazia imbutida uma crítica social específica e devastadoras (preconceito racial, consumismo e crimes militares em destaque).

Romero acrescentou mais um grande filme nesse rol: Terra dos Mortos (2005), que peitava a relação predadora entre ricos e pobres. Um quarteto de filmes de respeito, só manchado pela Ilha dos Mortos (2009), um filme ruim e esquecível. Romero, hoje, é o cineasta mais imitado no mundo e uma fonte infinita de refilmagens: Madrugada dos Mortos (2004, excelente) e A Noite dos Mortos Vivos: Origem (2010, uma porcaria) são alguns exemplos. Em 1990, Tom Savini fez uma surpreendente refilmagem de A Noite dos Mortos Vivos, tornando-a uma das melhores do gênero.

E o ano de 1985 foi um desses que define um gênero. Somente aqui veio duas outras referências cinematográficas para os desmortos:  os clássicos Reanimator e A Volta dos Mortos Vivos. O primeiro, fruto do trabalho enlouquecido de Stuart Gordon. O outro, uma obra marqueteira de Dan O’Bannon (a mente doentia por trás do monstro de Alien). Em 1988, Wes Craven (da série Pânico) voltou ao tema de Zumbi Branco ao criar um drama sobre processo de zumbificação de haitianos, dessa vez nas mãos do ditador Baby Doc.

Mas, a essa altura do campeonato, os italianos, pródigos em produzirem giallos (filmes de seriais killers), resolveram se aventurar no gênero. E a experiência foi a mais divertida possível. Filmes tão díspares como Demons (1986), de Lamberto Bava (e produzido pelo mestre Dario Argento) e Pelo Amor e Pela Morte (1994) mostraram que era possível dar um toque de autor aos filmes podreiras. Mas foi o grande e injustamente esquecido Lucio Fulci que a cara definitiva para os zumbis spagghetis. Com o maravilhoso Zombie 2 (1979) (nome picareta dado pelos produtores italianos, para dizer que seria uma continuação de A Noite dos Mortos, que foi chamado no país de Zombie) e com o intenso The Beyond (1981), Fulci levou esse tipo de filme marginal a um novo patamar, misturando carne estragando com um clima gótico e trilhas arrasadoras do Goblins. E em Zombie, ainda tem zumbis caminhando no fundo do mar!.

E a coisa se espalhou pelo mundo. Peter Jackson (O Senhor dos Anéis), levou os zumbis para a Nova Zelândia em Fome Animal (1992) e daí eles chegaram à Espanha (REC, 2006); À Noruega (Dead Snow,2009); Alemanha (Rammbock, 2008); França (A Horda, 2009) e até, pasmem, à Cuba (Juan de Los Muertos, 2012). Da terra da Rainha, vieram alguns bons exemplares, como o misógino e engraçado Doghouse (2010) e os clássicos Todo Mundo Quase Morto (2004) e Extermínio (2002). E, claro, não podemos esquecer os excelentes exemplares brasileiros dessa safra: o bom Mangue Negro (2008) e os razoáveis Porto dos Mortos (2010) e Zombio (1999).

A promessa é que esta escalada popular dos zumbis continue em alta com o sucesso de The Walking Dead. Mas, isso já é uma outra história, em um Apolicalipse mais próximo de você.   

Para conhecer mais sobre os Zumbis:

Filmes:

Zumbi Branco
Reanimator
A Noite do Mortos Vivos
Madrugada dos Mortos
Dead Snow
Doghouse
Juan de Los Mortos
REC
A Maldição dos Mortos Vivos
Planeta Terror
Todo Mundo Quase Morto
Fido
Zumbilandia
Fome Animal
Extermínio
Terra dos Mortos
Cemitério Maldito
Zombie 2
Cockneys vs Zombies
A Volta dos Mortos Vivos

Quadrinhos

Walking Dead (2003) – Série de quadrinhos que deu origem à série e jogo

Marvel Zombies (2005) – Hq criada por Robert Kirkman onde os morto-vivos invadem o universo Marvel.

The Goon (1999)



Séries

Walking Dead (2010) – Sucesso de público, apesar de escorregar feio na terceira temporada. Quarta temporada estréia em outubro deste ano.

Dead Set (2010) – Minissérie interessante sobre zumbis que atacam um set de gravação de um reality show estilo Big Brother.

Death Valley (2011) – Série Cômica da MTV sobre grupo da polícia especialista em caçar zumbis e vampiros. Durou uma temporada.

In The Flesh (2012) – Excelente drama britânico que trata de zumbis “reabilitados” e novamente inseridos na sociedade, encarando preconceitos e dramas existenciais. Segunda temporada já foi anunciada para 2014.

Les Revenants  (2012) – Elogiada série francesa sobre pessoas que voltam do mundo dos mortos. Uma temporada apenas.


Games

Zombies Ate My Neighbors (1993) – Clássico absoluto do Snes e difícil de zerar pacas.

Resident Evil (1996) – Game que influenciou uma geração de survivor horror nos videogames e rendeu uma série de sucesso com dezena de jogos.

Left for Dead (2008) – Jogo de tiro colaborativo com ritmo frenético.

Plants vs Zombies (2011) – Puzzle divertido feito para plataformas móveis.

The Walking Dead (2012) – Elogiada adaptação da HQ com novos personagens e modalidade Point and Click.

Literatura


Orgulho e Preconceitos e Zumbis (editora Intrínseca) – Releitura do clássico Orgulho e Preconceito de Jane Austen.

Celular (editora Objetiva) – Excelente livro de Stephen King sobre contaminação global causada por celulares.

The Walking Dead – A Ascensão do Governador (Editora Record)

Guerra Mundial Z (Editora Rocco)

  





Videoclipes:

Michael Jackson – O clássico Thriller


Billy Idol -  Dancing With Myself  (dirigido por Tobe Hooper, do Massacre da Serra Elétrica)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Guerra Mundial Z


A consciência de que somos pequenos diante do universo e da natureza somada ao medo causado pela perda da humanidade em situações-limite. É a premissa básica de um bom filme de zumbis. O gore – sangue, tripas, etc. – é um bônus. Pode ou não fazer parte desta equação e não está ligado diretamente à qualidade da obra. Essa confusão existe por um motivo muito simples: é mais fácil apelar para a violência gráfica do que trabalhar uma ideia, pensar o filme, provocar sensações por meio da linguagem cinematográfica, da estrutura narrativa e de um subtexto interessante – seja ele político, religioso ou social. Guerra Mundial Z faz isso. E muito bem. 
Para efeito de comparação, tomemos como exemplo uma das principais séries do momento: The Walking Dead. Questões ligadas à sobrevivência norteiam a produção e zumbis não passam de pano de fundo para os conflitos entre os vivos. Vez ou outra, um aparece e rola a carnificina. Nada gratuito. Tudo de grotesco que acontece apenas ressalta uma dramaticidade pré-existente. É, como disse antes, um bônus. 
Já em Guerra Mundial Z, o massacre e cenas mais fortes são sugeridos. Não vemos uma única gota de sangue derramada, mas do princípio ao fim ficamos em estado de alerta, em total tensão, pois o perigo que ronda os personagens nos envolve e um simples piscar de olhos parece ser fatal. A identificação inicial com aquelas pessoas é, portanto, essencial para entrarmos nesse jogo, pois as cenas de ação, que dão a exata dimensão da escala global que o vírus atingiu – e que remetem diretamente aos créditos iniciais, com a noção do nosso comportamento “animalesco” na Terra – são encadeadas de maneira a não deixar espaço para respiros ou aprofundamentos psicológicos. 
E como esse resultado é alcançado? Logo no começo, observamos Gerry Lane preparar o café da manhã para as filhas, fazer brincadeiras no carro... Ações que poderiam ser de qualquer pai de família no dia a dia. O cotidiano é invocado. É um dia comum na vida do cara. Poderia ser qualquer um de nós em seu lugar, não é preciso superpoderes. Lógico que ter treinamento militar de ex-agente da ONU como ele ajudaria um pouquinho no processo. Mas o fato é que ele é humano, tem que encarar a própria mortalidade enquanto tenta cumprir a sua missão, que não é salvar o mundo. Isso já seria uma consequência do que de fato importa a ele: salvar a sua família. 
Por falar nisso, “salvar o mundo” soa até um pouco contraditório, já que aqui é a natureza quem está nos dando o troco, como um implacável serial killer, nas palavras do cientista que tenta decifrar as pistas deixadas por esse “vilão” e, dessa forma, achar uma cura. Mas dar o troco pelo quê? Quem se faz essa pergunta obviamente não é familiarizado com os filmes de zumbi, cuja pertinência sempre se fará presente quando a sociedade vive uma crise, seja em que âmbito for, pois a alegoria é a sua razão de ser. Por isso, cada canto escuro explorado pela câmera do diretor Marc Forster e até mesmo cada morto-vivo que avança sobre nós trazem consigo um espelho para que possamos ver, enfim, onde erramos e como – e se – podemos recolocar o mundo nos trilhos.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Game of Thrones é um grande novelão da Globo


Novamente o aviso: o texto aqui trata unicamente da série de TV. Não li os livros nos quais foi adaptada.
Game of Thrones não é uma série ruim. Longe disso. Tem qualidades que remetem ao padrão HBO de excelência em séries. A produção é caprichada e os efeitos melhoraram muito. A série pode se gabar ainda de ter atores excelentes e veteranos (Charles Dance, Iain Glen, Ciaran Hinds, Peter Dinklage) e uma trilha sonora bem conduzida.

O problema está no que seria vital para qualquer narrativa seriada: a sua história. São tantos problemas e furos que fica difícil se empolgar com tudo o que se passa na tela. Os roteiristas (volto a dizer, não sei o que George R.R. Martin faz nos livros) começaram jogando uma penca de personagens a tela.

Se você não for Robert Altman, fica difícil se interessar por algum personagem específico ou pelo seu desenvolvimento. É tanta gente, que tem momentos que um aparece em cena depois de tanto tempo que tenho que puxar muito na memória ou recorrer ao Google para relembrar quem é o dito cujo. (como a turma de Thoros de Myr). E outros, simplesmente, desaparecem sem justa causa (cadê a tal de Lady Arryn e seu filho mamador bizarro?).



Outro problema é a falta de vontade em resolver os nós da história. Na minha opinião, ficou tão problemático fechar os arcos da mitologia de Westeros que a única opção é matar personagens. A morte é um recurso dramático essencial para as narrativas, mas pode servir de muleta dramática quando ela acontece sem uma definição daquilo que a introduz. Além de que, é extremamente desonesto com que acompanha o desenrolar dos acontecimentos. Coisa que autores da Globo, como Glória Perez e Gilberto Braga adoram fazer.

O exemplo claro disso é o tal de Casamento Vermelho. Justiça seja feita, as cenas foram bem filmadas, são tensas e o final é impactante. Mas, precisávamos mesmo de 29 episódios para ter algo assim? E o que as mortes de Robb Stark e sua mãe acrescentam à história? E todo aqueles dilemas de guerra que acompanhamos antes? Como disse, funciona como algo para tapear o telespectador.

Mesmo assim, gostei de mais coisas agora que nas outras temporadas: Finalmente, Khaleesi e sua turminha da pesada começam a ter um desenvolvimento adequado, com a conquista de um exército e a luta contra a escravidão. E os dragões já são ameaçadores, isso é bom. Jaime Lannister também está ganhando uma espécie de redenção e é um caminho interessante para o personagem.

Adoro também o duelo de interpretações de Charles Dance e Peter Dinklage como pai e filho. A dupla dá um show de ironia, vergonha e presunção. E os diálogos entre os dois são sensacionais. Tenho que saudar ainda a atriz Michele Farley, que dá um peso dramático para Lady Stark. Sua angústia em ver sua família desmoronando é real e dá uma angústia. Emmy e Globo de Ouro pra ela. Uma pena que tenha tão pouco tempo em cena.

De resto, é aquilo: Bran e Rickon ficam peruando por ai, Jon Snow não serve pra nada e o tal de Stannis Baratheon fica alí, chorando, enquanto aquela bruxa vermelha o faz de trouxa. E o que é o personagem de Davos? Salvem o personagem de Liam Cunhingham da mesmice!. E sério mesmo? O tal de Theon passou a temporada inteira sendo torturado naquela câmara? Precisa disso?

Os: Porra, cadê os zumbis? Só apareceu um depois de todo aquele exército legal do final da segunda temporada?

Pensando um pouco mais nessa questão da falsa história de Game of Thrones, resolvi fazer umas comparações com autores de novelas da Globo. Vamos lá:

- A série tem dezenas de personagens, o que faz com que muitos sejam esquecidos ou fiquem perdidos em cena. (novela da Glória Perez)

- Homens e mulheres com pouca roupa, sujos e suados. (estilo Carlos Lombardi)

- Personagens são mortos sem que nos importemos com eles apenas para servir de muleta dramática. (Gilberto Braga, é com você)

- Didatismo, cara. Odeio didatismo. (Sílvio de Abreu ficou mestre nisso).

- Falsas polêmicas com cara de crítica social. (Glória ai de novo e, em menor grau, Walcir Carrasco)

- Cenas que só servem para encher bucha e que nada acrescentam à história. (todos os mencionados)

- Alívios cômicos forçados. (Sílvio e Lombardi no par ou ímpar).
  



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Um novo massacre

Tenho duas imagens bem distintas, porém igualmente fortes na memória, quando o assunto é a saga da família de Leatherface. A primeira remete ao desconforto e tensão que tive ao assistir ao filme de Tobe Hooper, o clássico de 1974. Não foi medo, mas algo além disso, uma espécie de transe, similar àquele estágio angustiante entre o sono e o despertar, quando os pesadelos se tornam bem reais. A segunda imagem é de uma histeria coletiva de risos. Uma tarde de trabalho em que a redação do jornal parou para acompanhar a parte dois da série, um amontoado de absurdos que desafiava qualquer lógica e desde então se inseria na categoria de um dos maiores filmes trashs que já vi na vida. A cena final com a sobrevivente girando a motosserra no ar arrancou aplausos entusiasmados de todos os presentes. 
O Massacre da Serra Elétrica é assim: oito ou oitenta, indiferente não dá para ficar. Eu, particularmente, gosto de todas as encarnações da história. Leatherface e seus pares são personagens instigantes, seja provocando o terror ou a comédia. Sim, porque embora ele seja um ícone do cinema de horror baseado na seriedade do filme original, do que veio depois pouco se salva para o gênero, apenas alguns sustos e, claro, o fato de haver litros de sangue falso jorrados pelas vítimas do maníaco. Mas é tudo tão nonsense, tão descabido e feito nas coxas, que você não compra as tramas apresentadas, não te tocam como a primeira versão. Mas podem ser consumidas como passatempos, dá pra se divertir. 
Todas as gerações já tiveram contato com algum exemplar da franquia, seja uma sequência, remake ou um “prequel” (história de origem). Talvez o que tenha ficado mais marcado seja a infame refilmagem de 2003, com Jessica “Camiseta Molhada” Biel, que, por vias tortas, manteve o tom claustrofóbico do original, proporcionado por uma irritante linguagem de videoclipe, na moda à época. Agora, para aproveitar a onda, também irritante, do 3D, eis que surge uma sequência que ignora tudo o que veio após o filme de 74, mas que segue a mesma regra de todos aqueles cuja pretensão tentou sufocar ao se declarar a “continuação oficial”: clichês à exaustão, com alguns pontos positivos aqui e ali. 
A cartilha é conhecidíssima: grupo de amigos da cidade vai para uma cidade do interior, onde um por um, serão surpreendidos pelo assassino. E claro que não falta a mocinha tropeçando enquanto foge e as demais vítimas fazendo as piores e inconcebíveis escolhas. Algo como na paródia Todo Mundo em Pânico, em que ao se deparar com uma placa indicando as direções para “Morte” e “Segurança”, a opção é sempre pelo primeiro caminho. Fora que a simples leitura de uma carta logo no começo – recomendada com fervor por um dos personagens – teria evitado... Bem, teria evitado que o filme acontecesse. Deixando a metalinguagem de lado, o diagnóstico só pode ser burrice aliada a uma extrema falta de curiosidade. 
De positivo, embora também inverossímil, a virada final, que parece ter se inspirado no ideal de Zé do Caixão ao exaltar a linhagem, o sangue, como uma verdadeira fonte de poder, e o fato de subverter as regras da “última garota” para criar uma intimidade forçada e até nossa simpatia com a “causa” do vilão. Um desfecho improvável, mas que pelo menos escapou do lugar comum. E, cá pra nós, na altura dos acontecimentos qualquer surpresa era bem-vinda, valia tudo, pois não é possível que alguém ainda estivesse levando o filme a sério. Ele já se enquadrava no rol dos trashs, tinha mesmo que fazer por onde. 
O primeiro O Massacre da Serra Elétrica, portanto, continua único. Ali você pode ter uma noção dos crimes cometidos por Ed Gein, que serviram de base para a criação da saga. Dá medo, causa palpitações. É sensacional. O resto é Hollywood brincando com ketchup, botando em prática ideias estapafúrdias, atuações ridículas, roteiros furados e, intencionalmente ou não, engraçados. O que, para quem gosta de filmes trashs, também é sensacional. Escolha o que mais lhe agrada, não leve em consideração que a “serra elétrica” na verdade é uma “motosserra” – cortesia dos tradutores brasileiros – e bom massacre.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O Mestre (The Master, 2012)






Em o Mestre, Paul Thomas Anderson volta a um tema recorrente de sua filmografia: as relações paternas. Mas, diferente de Sangue Negro e Magnólia, aqui esse conflito não é cosanguíneo. Criador e criatura se confundem, como um Frankestein às avessas, desconstruído a partir de um discurso religioso de fantasia, apoiado em conjecturas falsas e encenações canhestras, em uma das milhares de missões religiosas, aqui denominada “A Causa”, criada nos anos de 1950.


Anderson é um grande diretor. Sabe como trabalhar com a fotografia, a trilha sonora ( de Johnny Greenwood, guitarrista do Radiohead). Adepto de planos curtos e planos longos em sequência, PT sabe sufocar e aliviar o espectador quando quer. Seu domínio do cinema é invejável para os dias de hoje.
Baseada na Cientologia, religião sci-fi dos famosos, A Causa segue os mesmo vícios desta. Centraliza o milagre nas mãos pesadas de um único homem e esta gravidade forçada acaba por estabelecer relações com objetivos automáticos, porém, potencialmente destrutivos (e a semelhança com outras religiões cristãs não é mera coincidência).

Nesse caso, se pensarmos bem, o ser humano é normalmente (ou anormalmente) movido por seu comportamento animalesco. Assim, a violência, o sexo e a falta de compaixão são características intríssecas à humanidade em busca da sobrevivência. E seria muito difícil retirá-lo deste habitat apenas com orações, citações e encenações de hipnoses.



E é neste cenário que o pastor Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman, sensacional)  tenta domar o alcoólatra e pervetido Freddie Sutton (Joaquin Phoenix, ótimo). Ele sabe que a sua própria sombra está refletida naquele rapaz, capaz de simular um sexo constrangedor com uma escultura de areia. Porém este mesmo é dominado pela esposa, vivida com intensidade por Amy Adams. E este triângulo teria tudo para terminar em tragédia, como em Sangue Negro, se não fosse os próprios defeitos (virtudes?) de Sutton. Ele é indomável. Sua postura e modo de agir  são de um selvagem. E Phoenix capta esse maneirismo com uma seriedade impressionante. Impossível para um pastor domesticar uma pessoa assim. Talvez em uma próxima vida. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Ray Harryhausen

Lembro como se fosse hoje: a minha cara emburrada ganhava contornos mais amenos e a má vontade foi sendo substituída aos poucos por um estado de total atenção. A cada nova cena de Fúria de Titãs, mais distante ficava o som da algazarra que meus amigos faziam na rua, jogando bola. A missão era gravar o filme para o meu avô no videocassete, tirando os comerciais. Mas o que, à primeira vista, era uma tarefa ingrata, passou a ser um imenso prazer. Todas aquelas criaturas fantásticas, em uma aventura de tirar o fôlego, me conquistaram. Foi o meu primeiro contato com o trabalho de Ray Harryhausen e afirmo, sem sombra de dúvidas, que até hoje e, mesmo levando em consideração os precários efeitos especiais da época, a Medusa criada por ele continua extremamente assustadora. 
Ray Harryhausen morreu nesta semana aos 92 anos. O seu legado para o cinema de ficção e fantasia vai muito além de Fúria de Titãs, como fiz questão de descobrir após a minha iniciação naquela tarde, na casa do meu avô. Parei incontáveis vezes para assistir aos filmes de Sinbad no Cinema em Casa, do SBT, ou na Sessão da Tarde, da TV Globo. Ou então do Jasão e os Argonautas, outro clássico. E eles sempre carregavam a sua marca, que mesclava animatrônicos com stop-motion na concepção, geralmente, dos vilões das histórias. E a fauna era extensa: esqueletos saindo da terra, tigres, macacos guerreiros e as mais variadas criaturas mitológicas, como a já citada Medusa, o Ciclope... 
Em tempos de cinema 3D e de milhões de dólares gastos só com efeitos especiais, assistir a um filme que tenha a impressão digital de Harryhausen pode soar como pura nostalgia ou algo tosco, mas juro que, pelo menos pra mim, não funciona desse jeito. Eu realmente gosto do trabalho artesanal. O amor pelo cinema parece ficar mais explícito, pois o envolvimento é maior e a técnica, de modo geral, sempre está a serviço da história e não o contrário. E stop-motion é uma arte que dá trabalho, porém, o resultado certamente vai compensar se você for comprometido e tiver paixão pelo que faz. Basta ver, por exemplo, o que fizeram na nova versão de Fúria de Titãs. Um filme que teve todo um aparato tecnológico à sua disposição e não passou do medíocre. 
Tenho em casa uma edição especial de O Monstro do Mar Revolto, no qual um polvo gigante é uma ameaça aos humanos. Nos extras que acompanham o filme dá pra perceber como se trata de um trabalho minucioso e de superação, já que as condições não eram lá essas coisas. Estamos falando, afinal, de um autêntico filme B, como a maioria dos trabalhos em que se envolvia. O polvo não tinha os oito tentáculos que deveria ter, apenas seis. No entanto, sinceramente, não tinha nem me tocado pra isso durante a exibição do filme. A explicação é simples: é o tipo de trama que consegue entreter, prender a atenção, mesmo com falhas e deslizes de roteiro ou direção, pois entrava em ação o poder da fantasia. E Harryhausen era um mestre em criar esse universo.

In the Flesh, 2013



Esta série britânica da BBC é a prova que dizer que o gênero de Zumbis está saturado é uma balela que só os críticos com ar blasé acreditam. Zumbis sempre serão legais. E sempre haverá algum criativo disposto a incorporar novas mensagens e metáforas sociais envolvendo os mortos-vivos. In The Flesh adiciona um novo e dramático componente: os ex-zumbis. Sim, a série traz a perspectiva de personagens que já comeram carne e graças a um programa do governo e medicamentos conseguiram reverter (pelo menos parcialmente), os efeitos da degradação nos mortos.


Aqui não há hordas sanguinárias, tripas expostas ou gente sendo mordida e se transformando em questão de segundos. Há apenas um jovem solitário que se suicidou por uma paixão não-correspondida por um amigo, e voltou quando não queria. Interessante que todos os “ressuscitados” foram recém-conduzidos de volta a terra dos vivos de maneira inexplicável, que a série, com razão, nem se dá ao trabalho de tentar mostrar. O importante são as reconstruções das relações humanas que estavam destroçadas diante do fim injustificável.
A dor principal não é causada pelo organismo apodrecido. Mas sim, por uma sociedade preconceituosa que não aceita o diferente e nem o amor livre e se vale de uma muleta histórica para justificar suas barbaridades: a Religião. Aquela que, segundo a Bíblia, deveria ser fonte de amor e compaixão é distorcida pela sociedade do ódio e da destruição e, aqui, é impossível que tudo acabe bem. Afinal, sempre teremos exércitos de controladores odiosos que se escondem atrás da gravata e paletó ou da batina pra propagar seus poderes sobre os fracos de espíritos.

In The Flesh vai na ferida, em estado de gangrena, que seja e adota um pessimismo direto. Com tons de cinza e trilha sonora ancorada em canções tristes ( com alguns poucos alívios cômicos), a série mostra que não há salvação para quem é homossexual, negro, pobre ou zumbi. Todos têm que se adequar a um sistema cujo contrato social está mofado e não adaptado aos novos tempos, sob o risco de levar um tiro na cabeça. E que nem o fato de sermos criaturas do mesmo sangue, nos livra de nosso destino cruel. A morte aqui é o horror, mas também a moeda de troca.
Com apenas 3 episódios, In The Flesh se mostrou na sua primeira temporada que é uma das melhores estréia de 2013 na televisão mundial. E é muito bom saber que, em termos de bom cinema, a TV está no seu ápice de qualidade. Que dure por muito tempo. 







sexta-feira, 3 de maio de 2013

John Carpenter - Mestre do Terror


John Carpenter é um daqueles raros artesãos do cinema. De seus filmes, mesmo os medianos, sempre se pode extrair algo de bom. Ele domina a linguagem cinematográfica, pensa a sua narrativa, sabe exatamente como fazer para conseguir a reação esperada do espectador. E isso, no gênero que é a sua especialidade, é fundamental. Até porque o terror hoje sofre com a falta de consistência e originalidade em suas obras e a nova geração, como regra, parece entender que basta aumentar o volume do som para criar um foco de tensão e suspense. Não saber trabalhar a história, desenvolver personagens e, consequentemente, a trama, é um pecado que Carpenter não cometeu em sua vasta filmografia – no máximo uns “pensamentos impuros” aqui e ali, pois ninguém é perfeito. 
Para quem se interessou e quiser comprovar as afirmações acima, o Cine CCBEU promove este mês, a partir do dia 9, o ciclo “As várias faces do mal”, com a exibição de filmes do cineasta, como parte das comemorações pelos quatro anos de existência do cineclube. Estão programados: Halloween, À beira da loucura, Christine – O carro assassino e O enigma de outro mundo. Verdadeiros clássicos do cinema de terror e ficção científica. 
Embora os quatro filmes escolhidos sejam representativos em sua carreira, não pense que sairá de lá expert no cinema de Carpenter, pois ficaram de fora obras essenciais como A bruma assassina, Fuga de Nova York, Eles vivem e Assalto ao 13º DP. Isso sem contar produções menores, mas não menos interessantes, como Pesadelo Mortal (que faz parte da série Mestres do Terror) e Trilogia do Terror, e o divertido Os aventureiros do bairro proibido. Minha dica, portanto, é: vá ao CCBEU e depois à locadora ou à internet. 
Dentre os filmes do ciclo, Halloween é o mais conhecido e apresentou o icônico Michael Myers, personagem que assim com Jason Voorhes e Freddy Krueger também sofreu um processo de idiotização após algumas sequências caça-níqueis. Talvez um pouco menos, já que a sua natureza impediu que o humor tomasse conta dos filmes, como em seus pares, se “limitando” à ruindade desses projetos. Mas nem essa banalização foi suficiente para manchar a imagem do original. Halloween é um filme que ainda hoje causa palpitação. O medo é real, nos faz olhar para o lado, checar se as portas estão trancadas ou coisas do tipo. Destaque para a trilha sonora e a interpretação de uma das mais notórias rainhas do grito, Jamie Lee Curtis. 
Os outros três têm em comum o terror psicológico, a forma como Carpenter nos envolve na vida dos personagens e nos faz temer pelo que possa acontecer com eles. O ambiente tomado pela escuridão e cantos desertos, provoca uma sensação de desconforto, perigo iminente e são reflexos das sombras que habitam a nossa própria alma. Essa é talvez a principal característica do seu trabalho. Ele não tem pressa, contempla a tudo e a todos. O medo é onipresente, um estado de espírito. Mas quando revela a sua face no mundo real, quem não estiver preparado irá sucumbir.