sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sobrevivência

Situações extremas tendem a revelar a verdadeira face das pessoas. Se esconder atrás de palavras não é mais uma alternativa válida, são as atitudes que contam em um mundo tomado pelo caos e pela incerteza. Muitos perdem qualquer resquício de humanidade, se tornam amargos, egoístas. Outros se agarram àqueles que amam, família e amigos, vendo nessa relação de cumplicidade uma maneira de manterem-se “vivos”, com a esperança, embora remota, de que tudo volte a ser como antes. Quem está certo ou errado? A questão é mais complicada do que parece.
Interessante ser esta uma das principais discussões em uma série de terror. O tema da sobrevivência em meio a um apocalipse zumbi poderia facilmente resultar em uma trama superficial, sem conteúdo, com base apenas em sustos e elementos clássicos do horror, em nada diferenciando da maioria das produções que chega aos cinemas durante o ano. Felizmente, não é o caso de The Walking Dead, que faz por merecer todo o barulho causado a cada novo episódio, com profundas incursões pelo lado mais primitivo do ser humano, dominado pelo instinto. A série deu um tempo no sétimo episódio da 2ª temporada e só volta em fevereiro.
Todos os personagens ali são tridimensionais, possuem uma carga de complexidade rara no gênero. Seus dramas e conflitos saltam da tela e, certamente, encontram identificação no espectador. Maniqueísmo é algo que não existe. Todos têm seus motivos para ter determinado comportamento, por mais que não estejamos de acordo. E até essa nossa visão fica alterada, já que se trata de uma nova realidade. Será que julgar algo com uma visão "antiga" é o correto? Os conceitos de "bom" e "mau" permanecem inalterados? É uma discussão que pode se prolongar bastante.
Shane, por exemplo, à primeira observação, é repulsivo. Um cara que deveria ser proibido de manter contato social, já que deixou a maldade, inerente a todo ser humano, reger a sua existência como forma de preservação. Mas as experiências aterrorizantes pelas quais passou poderiam ser consideradas atenuantes, não? Além disso, quem pode dizer, sem um pingo de dúvida, que não prejudicaria ou até mesmo mataria um desconhecido para salvar a vida de uma pessoa querida? Ele escolheu um lado, uma forma prática de sobreviver. Para ele, funciona.
E o Rick? Um "mocinho" que toda vez que tenta fazer a coisa certa, acaba causando danos a alguém. É mais fácil fazer de Shane um vilão, mas se os mortos caminharão sobre a Terra quando o inferno estiver cheio, como dizem, Rick, com suas boas intenções, é um dos principais causadores desse extermínio. É difícil julgar. Agir como Shane pode até significar tornar-se um monstro, um zumbi, por assim dizer, sem sentimentos e ligações com o passado. Mas pode ser a única saída em tempos de crise. Quem sabe o apocalipse zumbi não é exatamente isso: o auge da degradação humana, quando o homem terá que recomeçar do zero o seu processo evolutivo e se aperfeiçoar como raça para não cometer os mesmos erros.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Attack the block

Uma história bem contada não precisa de efeitos especiais grandiosos para prender a atenção do público. E não importa se o filme em questão traz como tema um ataque alienígena, que, por conceito, carece de um mínimo de investimento que permita ao espectador se envolver com a trama, torná-la crível. Em “Guerra dos Mundos”, por exemplo, Spielberg torrou cerca de 200 milhões de dólares e o resultado foi apenas regular. O original, da década de 50, com parcos recursos, quase um filme B, obteve muito mais êxito nesse aspecto.
Mas como sucesso de bilheteria é o fator levado em consideração pelos estúdios, não é exatamente uma surpresa que “Attack the block”, um filme inglês de baixo orçamento (13 milhões de dólares), nunca tenha chegado aos cinemas brasileiros. Ele não tem a “grife” hollywoodiana, embora seja produzido por Edgar Wright, responsável pelos excelentes “Todo mundo quase morto”, “Chumbo grosso” e “Scott Pilgrim contra o mundo”. Fora que não possui um Tom Cruise ou similar no elenco. O mais conhecido ali é Nick Frost, habitual colaborador de Wright. A direção é do desconhecido Joe Cornish.
O filme começa com uma inversão de valores. Os mocinhos aqui não são pessoas virtuosas, com quem podemos nos identificar facilmente. São os chamados “trombadinhas”, que fizeram de um bloco de condomínio o seu território, roubando com violência os desavisados que passam por ali. Ao atacarem uma moradora, são surpreendidos por um asteroide, que acerta em cheio um carro próximo. O líder da gangue, Moses, aproveita para vasculhar o automóvel destruído atrás de alguma coisa de valor, mas se depara com uma criatura que o fere e foge.
Inconformado, Moses parte à caça do que ele pensa ser uma espécie de porco-espinho e o mata. Ele leva o bicho para um traficante amigo seu analisar, já que o cara é fanático por Animal Planet e, quem sabe assim, faturarem uma grana. Mas, da janela do apartamento, Moses e sua gangue observam inúmeros asteroides caindo ali próximos. Não há dúvidas, é uma invasão.
O filme possui um forte caráter social, que retrata a juventude marginalizada londrina e a relação desta com a polícia local. Mas é uma carga de dramaticidade que não tira o foco da diversão, ao contrário, a reforça, utilizando-a como muleta para movimentar a narrativa, fazê-la andar. Uma disputa de poder no condomínio, que ocorre paralelamente, também serve a este propósito.
Mas esse contexto seria de pouca utilidade se as criaturas de “Attack the block” não causassem a tensão sugerida a todo instante. E como o orçamento não permitia grandes esforços da equipe de efeitos especiais, a opção foi por uma fotografia (por si só acinzentada para transmitir a melancolia que é viver naquele condomínio), mais escura quando os aliens surgem em cena, realçando sua capacidade destruidora com um intenso brilho azul das suas bocas. É simplesmente amedrontador.
A inventividade do roteiro prossegue até o final, quando descobrimos o porquê da insistente perseguição aos jovens (ao lado da vítima do assalto no início - em mais uma sacada genial - que terá que confiar sua vida aos seus inimigos), já que, a priori, as criaturas teriam toda a Inglaterra para espalhar o terror.
Enfim, é uma pena que “Attack the block” não chegue aos cinemas. São raros, hoje, os filmes de gênero que não insultem a inteligência do espectador. Parece que há uma regra implícita: para ser mainstream, é necessário vir mastigado. Ainda bem que existem as exceções e, claro, a internet para baixar essas preciosidades.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Vampiros que brilham e outras patetices

Estreia em número recorde de salas de cinema no Brasil o filme Amanhecer, o quarto da “saga” Crepúsculo. Algo inversamente proporcional à qualidade dessas adaptações. Mas o sucesso de público não chega a ser incompreensível. Os fãs da série são os mais xiitas que surgiram na última década. Não admitem críticas, defendem o produto de sua adoração com unhas e dentes. Mas ainda não encontrei um que não seja uma adolescente suspirando pelos cantos por causa do “vampiro” e do “lobisomem”. Menos mal. Elas vão crescer e ver como esse comportamento é ridículo.
Até porque, elas, com certeza, não conhecem os vampiros e lobisomens de verdade. Os de Crepúsculo são uma afronta ao gênero do terror. Vampiros que brilham no sol, que passam a eternidade em escolas... Não dá pra engolir. Uma coisa é criar um mundo de fantasia, como Harry Potter, por exemplo, que não raro é comparado (injustamente, já que está a anos-luz em qualidade da trama de Stephanie Meyer) com Crepúsculo. Outra é se apropriar de elementos consagrados – artifício teoricamente mais fácil – e criar algo tosco, ruim, desrespeitando toda a mitologia que envolve os seres sobrenaturais.
E antes que me acusem de detonar Crepúsculo por este ser “um romance e não terror”, argumento que já escutei diversas vezes, assistam “Drácula”, do Coppola. Aquilo, sim, é um romance. E mesmo fora do horror, muitas comédias, por exemplo, tratam esses ícones com mais propriedade do que Crepúsculo. E nem venham também com a história de que a protagonista é um exemplo de superação feminina, que ela conduz a narrativa, ao contrário dos clássicos. A vocês, digo: a Bella (sim, sei o nome) é uma abestalhada, que espera tudo acontecer. Vai contra todos os ideais de feminismo.
Talvez até por isso haja tanta identificação. Ela, apesar de ser uma mulher feita, age como uma adolescente boba e imatura. Acho que se rolasse um papo entre a Bella e suas fãs do mundo real, o assunto não passaria de Hanna Montana e similares. Quem sabe até resolvam juntas um teste de revistas tipo Capricho ou Querida. Daqui a alguns anos, quem sabe, poderão falar sobre cinema. Mas falta muito pra isso.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

IT - A obra-prima do medo

Uma noite fria de julho. Todos sentados na frente da casa, só olhando o movimento, ou na praia ainda, aproveitando aqueles últimos dias das férias em Mosqueiro. Todos, menos eu e meu primo, Cesar. Ele inventou de ver um filme e eu, embora fosse tarde para uma criança estar fora da cama, fiquei por ali, já que ninguém tinha reparado mesmo. Melhor pra mim, pensei. Grande erro. O tempo passava e, cada vez mais, me afundava no sofá de tanto pavor. O ano era 1993 e até hoje eu guardo um trauma daquele filme, IT – A obra-prima do medo.
Só pelo cenário que tracei acima já dava pra ver que nada de bom sairia dali. Afinal, ele é praticamente um clichê de filmes de terror. Mas, aos dez anos de idade, ainda não tinha pelo gênero o amor que conservo hoje. O Cesar só percebeu o meu estado quando deu uma parada no VHS pra ir beber água e viu que eu fui atrás. Ele começou a rir da minha cara, obviamente, e me mandou parar de assistir. Nem tentei me fazer de gente grande. Corri da sala.
A história do palhaço assassino me perseguiu durante alguns meses. Tive pesadelos, demorava pra dormir, entre outros detalhes mais embaraçosos que, claro, não vou contar... Minha mãe só faltou bater no meu primo por ter me deixado assistir ao filme. Enfim. Passado algum tempo, já maior e vibrando a cada novo filme de terror assistido, de todas as vertentes possíveis, li numa daquelas revistas de programação da TV por assinatura que ia passar o tal do IT. Resolvi encarar meu trauma.
Com um olhar mais crítico, tive a noção de que o filme – que agora já sabia se tratar de uma adaptação para a televisão, em formato de minissérie, da obra de Stephen King – era bem ruinzinho. Bobo, até. Mas sabe aquela sensação? Um frio que percorre a espinha? Pois é. Tudo voltou. Terminei de assistir e a imagem do maldito palhaço ficou na minha cabeça o tempo todo, com aquela voz docemente assustadora com que atraía as crianças para a morte... Não foi com a mesma intensidade da primeira vez, mas precisei de uma sessão extra de comédias para espantar o medo.
Lembrei de tudo isso porque fui procurar uma foto de palhaço no Google para ilustrar uma matéria e, logo de cara, me apareceu a figura do Pennywise, que era como o assassino se apresentava. Um palavrão saiu da minha boca na mesma hora. Não tenho medo de outros filmes com palhaços, encaro numa boa. Mas esse... Eu tenho IT em casa, comprei um dia. Sabem quantas vezes eu assisti? Nenhuma. Quando falo do meu medo, as pessoas ficam loucas pra assistir, pois conhecem meu gosto e estranham essa história. Fiquei até tentado a revê-lo. Quem sabe...

domingo, 9 de outubro de 2011

Death Valley

Séries que mostram a rotina do trabalho policial não faltam na televisão. Cops, Lei e Ordem e CSI são alguns dos principais representantes do gênero, que é garantia de sucesso nos EUA há décadas. Apesar de reconhecer a extrema capacidade de reciclagem dos temas abordados nesses programas, admito não ser fã dos mesmos, justamente por conta desse ciclo interminável, da falta de um fio condutor na narrativa. É simplesmente episódico, do tipo assista um hoje e outro daqui a vários meses que você não vai boiar na história.
Uma série que inovou nesse aspecto nos últimos anos e ganhou meu respeito foi Dexter, que investiu nos personagens em vez de se limitar a resolver casos, tornando-se bem mais complexa que outros produtos similares. Afinal, o grau de dramaticidade aumenta a partir do nosso envolvimento, nossa preocupação com o destino das pessoas ali presentes. E foi por esse caminho que a MTV resolveu seguir quando decidiu realizar sua própria série com esse tema, Death Valley, cuja primeira temporada está em exibição.
A diferença é que a MTV optou também por dificultar as coisas para seus “heróis”. Em vez de bandidos normais, os policiais têm que lidar com hordas sanguinárias de zumbis, vampiros e lobisomens. A UTF (Undead Task Force) é a unidade responsável por conter, “educar” e, se for o caso (90% das vezes), eliminar as criaturas que invadiram a região de San Fernando Valley um ano antes. As histórias dos integrantes vão sendo reveladas aos poucos, assim como a interação entre os parceiros de combate aos mortos-vivos, numa dinâmica bem interessante, já que todos os seus passos são acompanhados pelas câmeras de uma rede de televisão, em um esquema de “falso documentário”.
Embora o sangue jorre em grandes proporções, em inúmeras cenas que nos fazem pular do sofá ou roer as unhas de tensão, Death Valley é basicamente uma comédia. De humor negro, claro, mas, ainda assim, uma comédia. Não tem como levá-la a sério. Os episódios duram, em média, vinte minutos e a diversão é garantida, até porque existem “n” possibilidades que podem ser trabalhadas nos roteiros, pois trata-se de fantasia, compromisso zero com a realidade obrigatória das séries policiais tradicionais.
A destacar também o belo trabalho de maquiagem dos monstros. São criações inspiradas. E tinham que ser mesmo, já que não houve, digamos assim, um apocalipse. O mundo como conhecemos não acabou e o resultado é que a presença desses seres não está envolta em trevas, eles não surgem em rápidas aparições, que mal nos deixam observar suas formas e características. Eles dividem o espaço com os humanos e, assim, têm que parecer críveis aos olhos do espectador.
Enfim, com essa mistura de humor inteligente e horror gore embalado em um formato policialesco consagrado na TV norte-americana, não tenho como não considerar Death Valley um sopro de criatividade no universo dos mortos-vivos, explorado à exaustão ano após ano, mas com poucas obras que realmente se destaquem. Veremos se a qualidade se mantém e a série garante uma nova temporada. Até agora, merece.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

The Walking Dead - Torn Apart

A segunda temporada do programa está prestes a estrear e uma websérie foi produzida para dar um gostinho aos fãs. São seis episódios que narram a história de Hanna, a zumbi cortada ao meio que estampou os cartazes da primeira temporada e apareceu no piloto da série. Confira abaixo, na íntegra:











domingo, 2 de outubro de 2011

A Árvore da Vida



Nunca li nenhum livro ou manual que dissesse que Cinema é história, com começo, meio e fim. Cinema é, acima de tudo, imagem. Terrence Malick entende isso. Aliás, o cineasta não só compreende, como vai muito além. Árvore da Vida é um libelo sobre a Vida e a Morte. Sobre Deus e Natureza. A razão versus a fé. A criação como Biologia e o amor como manifestação divina. Pronto. Nas mãos dos medíocres, seria um prato cheio para melodramas. Mas não para Malick. Não, ele não está interessado em agradar. Mas é subverter, angustiar. E criou um dos filmes mais belos que já vi na vida.

Não há uma história linear. Basicamente, é a de uma família média americana, nas décadas de 50 e 60 que chora a perda de um dos três filhos. A narrativa se desloca no tempo, indo e vindo, mostrando a educação rígida do pai e a doçura no trato com a mãe. Partindo, para a redenção do filho mais velho. Tudo entrecortado e envolvido por belas imagens. Desde a criação do universo. CGI bem usado, diga-se. A beleza do mundo e o conflito com Deus. Porque teria nos abandonado, se fez tudo isso tão belo?

Semioticamente, os planos propostos são elegantes. Planos fechados, baixos, ressaltando o olhar infantil. O despertar do mundo das crianças, da sexualidade, das dúvidas, dos enfrentamentos, diante de um mundo onde Deus teria abandonado (mas como abandonou se as plantas ainda crescem?).

Concordo que não é um filme fácil. Entendo quem saiu das salas de cinema no meio da sessão. Afinal, ficamos acostumados com o manual hollywoodiano de fazer cinema. E o Cinema atual está em crise de idéias. Mas é justamente nesses períodos que surgem as obras primas. Disse que Ilha do Medo era o melhor de 2010. Árvore da Vida é o melhor de 2011. O Primeiro, de Martin Scorsese, que junto com Malick, veio de outra geração em crise: Da década de 1970. É desses caras que os novos cineastas têm que tirar as boas lições.




Nota: 10

Trailer:

http://youtu.be/PlxZOOEHK4o

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Quando é dia de futebol

Um olhar encantado. Atenção aos mínimos detalhes. Tudo à minha volta parecia uma grande festa – e era mesmo. Movimentação, cores, gritos enlouquecidos, a fumaça que saía das churrasqueiras improvisadas, a chuva de cerveja e outros líquidos menos nobres (faz parte) e, o melhor de tudo, as bandeiras tremulando. Na cabeça infantil pairavam algumas tolas perguntas, típicas de quem só havia visto tudo aquilo pela televisão. Mas elas perderam a importância ao soar do apito daquele homem de preto. Agora era verdade. Eu, finalmente, estava ali, acompanhando, ao vivo, minha primeira partida de futebol.
Aos sete anos de idade, acho que até demorei a entrar num estádio. Hoje, vejo crianças de colo, bebês que nem entendem o porquê daqueles homens estarem correndo atrás de uma bola no gramado, devidamente uniformizados, com seu time já escolhido pelos pais. Sim, pois para um apaixonado por futebol, é uma afronta o filho não seguir a sua preferência clubística. Faz bem, portanto, o Clayton, meu chefe aqui no Diário, que mal soube que será pai de um menino, de imediato traçou planos para o futuro esportivo do herdeiro.
Mas qual a graça, o que de tão apaixonante tem o futebol? Perdi a conta de quantas vezes me perguntaram isso. Digo sempre o seguinte: se a pessoa não vê, de cara, a beleza, a plasticidade de um drible bem dado, seja ele por baixo das pernas do adversário, um lençol, um elástico, uma meia-lua; ou a dramaticidade contida no arco perfeito de uma bola chutada rumo ao ângulo do goleiro, que se estica todo e, por apenas um milímetro, não consegue tocá-la, então, realmente, não há como entender. Futebol é paixão à primeira vista.
Por isso, concordo com Carlos Drummond de Andrade, que disse que uma partida de futebol é mais disputada por torcedores do que por atletas em campo. O costume de não apenas ver, mas ouvir o jogo torna essa verdade ainda mais incontestável. A emoção transmitida por locutores de rádio, que fazem com que uma bola que passou a metros de distância do gol, tenha na imaginação do torcedor, magicamente, tirado tinta da trave, é motivo até de preocupação para pessoas que têm problemas cardíacos.
Imaginação. É uma arma poderosa no futebol. É fato que ser jogador profissional é a ambição de todo garoto que ama o esporte. E esse é um sonho que, se não realizado, nunca morre. Falta de talento não é problema. As peladas de fim de semana sempre vêm ao socorro. Não tenha dúvidas que aquele cara desengonçado, com aquela barriga de chope, está ali no campo se achando um Garrincha, um Zico, um Romário, feliz como uma criança. Por isso, esposas e namoradas, não fiquem de cara feia, nem cortem a onda dos seus companheiros. Não se brinca com sonhos infantis.
Imaginação. Só assim para passar por cima da crise eterna de Remo, Paysandu e Tuna, e, neste fim de semana, quando começar o Campeonato Paraense, torcer por todos aqueles pernas de pau, transformando-os em ídolos, do mesmo peso de Neymar, Ganso e Ronaldinho Gaúcho. Tudo pela esperança de que seus times, enfim, consigam corresponder a tanto amor, a tanta devoção. Sem dúvida, os verdadeiros heróis, os verdadeiros jogadores, não estão em campo. Estão nas arquibancadas. Certo, Drummond?

Texto publicado no Por Aí de 21 de janeiro de 2011. Era em virtude do início do Parazão, mas cai bem em dia de jogo do Brasil em Belém.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O verdadeiro cult

Durante a última semana, ouvi muitas reclamações sobre a ausência do novo filme de Lars Von Trier, Melancolia, na lista de estreias do circuito comercial de Belém. Sinceramente, a mim não faz a menor falta. E aqui tomo emprestada uma frase de Renato Russo para me explicar: Em minha opinião, o dinamarquês se enquadra naquela categoria dos que falam demais, pois não têm nada a dizer (Como toda regra tem exceção, O Anticristo é passável).
Radical? Talvez sim. Não costumo ser. Mas os filmes do Von Trier não me provocam reflexão, apenas sono (seguido de raiva por ter perdido meu tempo). Rebuscado ao extremo, ele exalta a forma para disfarçar um conteúdo desinteressante. E não me entendam mal, não se trata aqui de uma defesa do cinema-pipoca ou do entretenimento puro. Existem inúmeros cineastas – atuais e consagrados – que conseguem unir essas duas vertentes, arte e diversão, em suas obras e têm meu respeito.
Michael Mann, Chris Nolan, Copolla, Allen, Samuel Fuller, Edgar Wright, Shyamalan (que ainda tem crédito, mesmo depois das recentes bobagens que dirigiu) e Lucio Fulci são alguns deles. E aqui vai uma dica pra quem está se lamentando por não poder (ainda) assistir na telona o novo Trier. Um “velho” Fulci está em cartaz hoje à noite, às 21h, na Sessão Maldita do Cine Líbero Luxardo, com entrada franca. Infelizmente, vou estar em pleno fechamento da edição do DIÁRIO e perderei a exibição. Mas quem estiver sem compromisso e gostar de cinema, tem a obrigação de estar lá.
O filme em questão é Um lagarto com pele de mulher. Ainda não vi, não posso comentar especificamente sobre ele. Mas por tudo que já vi de Lucio Fulci, posso afirmar sem medo que o seu pior filme com certeza vale mais a pena do que o melhor de Von Trier. Craque da mise-en-scène, Fulci extrai a tensão de seus movimentos de câmera. Joga com o terror psicológico, ao mesmo tempo em que não hesita em partir para o gore, com litros de sangue jorrando da tela.
Curiosamente, um de seus temas preferidos é o mesmo que Trier vez ou outra invoca, como a religião, a violência e demais sentimentos originários daí. Controversos, ambos são. Gênio, pra mim, só Fulci. Ainda mais se levarmos em consideração os parcos recursos que o italiano sempre teve à sua disposição em oposição à babação de ovo em cima de Trier, que consegue financiamentos em vários países (seu banimento de Cannes por ter feito uma piada nazista só vai ajudá-lo nisso. Ele está na moda).
E se você virem o filme de Fulci e afirmarem que é trash, eu digo que a primeira impressão é essa mesmo. Eu tive e me diverti muito, do mesmo jeito. Claro que algumas pessoas não curtem isso. Mas vale a pena. Se os risos involuntários (eles existem) forem deixados de lado, você terá uma aula de cinema. Aos poucos, saltam aos olhos detalhes da composição, do roteiro, entre outros aspectos, que dão vontade de gritar, à la Cidade de Deus: “Trier é o c... Cult mesmo é o Fulci, p...”.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Piranha 3D

Gosta de filme trash? Não? Então passe longe de "Piranha 3D". Se curtir, como eu, você vai rir. E muito. Aliás, esse aviso é meio dispensável, afinal, de um filme com esse nome todo mundo já sabe mais ou menos o que esperar. Ainda mais com o sugestivo subtítulo: sexo, suor e sangue. É exatamente isso que teremos na tela durante os noventa minutos de projeção. Não tem propaganda enganosa.
E justamente por conta do primeiro item, uma dica: vá só com os amigos. "Piranha" é um filme para garotos. Nada de levar a namorada. A não ser que vocÊ queira ela lhe olhando torto ou tapando seus olhos nas cenas mais picantes. E eu lhe garanto: você não vai querer perder o balé aquático encenado por duas garotas. Fora os muitos outros fetiches masculinos presentes.
Quanto ao terror, ele é inexistente. Pessoas morrem, sim. O sangue jorra, também. Mas não há sustos ou clima de tensão. A não ser nas horas em que o 3D age e joga os monstrengos pré-históricos na nossa cara. É um legítimo "terrir", com a licença do cineasta tupiniquim Ivan Cardoso, que cunhou o termo. Com apenas uma óbvia substituição na parte mais explorada do corpo feminino, já que o filme é norte-americano, não brasileiro.
Para a nova geração, é importante lembrar que "Piranha" é uma franquia que, vez por outra, volta às telas. Tivemos o filme de Joe Dante, de 1978. A continuação, de 1981, que teve o privilégio de ser o longa de estreia de James Cameron, e contou com o surreal subtítulo: "Assassinas Voadoras". Além de várias obras de menor expressão (ainda).
Entre outros atrativos, essa nova versão traz participação especial de atores consagrados, como Richard Dreyfuss (do tipo piscou, perdeu) e Christopher Loyd - fazendo seu tipo amalucado de sempre. Além, é claro, da tecnologia 3D, que, embora tratada de forma simples no simples, torna algumas cenas bem interessantes. Por sinal, "Piranha" deve encerrar essa fase de conversões para 3D (exceto os retardatários que ainda não estrearam por aqui, mas já estão caducos lá fora).
Para terminar, volto a dizer: o filme é trash. Muito. Se não se divertir com isso, troque de sala. Caso contrário, boas risadas.

Texto publicado no Por Aí em outubro de 2010