sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Papão Smurf

“Há muitos e muitos anos, no coração da floresta, havia uma vila escondida, onde moravam criaturas azuis. Chamavam-se a si mesmo de Smurfs. Eram muito bons. Mas existia também o Gargamel, o feiticeiro perverso. Ele era muito mau. A floresta ainda existe e, se vocês prestarem atenção, ouvirão os gritos do Gargamel. Mas se vocês forem bonzinhos, conseguirão dar uma olhadinha nos Smurfs”. Texto de abertura de desenho animado dos anos 80 – e hoje filme de sucesso – ou um recado para a torcida do Paysandu? Se não conseguiu ler na entrelinhas, o Bola decifra para você, leitor.
O ano era 2006. O Papão era expulso da sua “vila encantada” e disputou a Série B do Campeonato Brasileiro pela última vez. De lá para cá, sofrimento, agonia e decepção. O time não conseguiu achar o caminho de volta, que o recolocaria em posição de destaque no cenário nacional. Pela tortuosa floresta da Terceira Divisão, Salgueiro, Icasa e outros, fizeram o papel de Gargamel, numa perseguição implacável aos seres alvicelestes e muitos jogadores viraram sopa de Smurfs. O eco das derrotas ainda reverbera pelos lados da Curuzu...
Agora, mais uma tentativa. Roberto Fernandes foi contratado ainda no final do Campeonato Paraense, com a missão de formar um grupo capaz de driblar as adversidades dessa trilha sombria. Como um sábio Papai Smurf, ele tem paciência e jogo de cintura para trabalhar e entrosar a equipe, mesmo com as fortes cobranças da torcida, que deseja ver resultados imediatos para não correr risco de perder, de novo, o rastro que leva à “vila” da Série B.
E tudo parece marchar para um final feliz, bem ao estilo dos desenhos oitentistas, já que o elenco formado é da melhor qualidade, com, por exemplo, a presença do Smurf Gênio, Thiago Potiguar, ainda fora de forma, mas peça importante no time e que conta com a confiança da Fiel. Mas, caso ele não esteja apto, temos ainda o Smurf Robusto, Robinho, que entra nos jogos com uma disposição impressionante, não há bola perdida. E se não der pelas vias normais, vai na sorte mesmo, com o Smurf Desastrado, Zé Augusto, que, aos trancos e barrancos, na raça, sempre consegue ser decisivo.
Como ainda está tudo no início, ainda vamos descobrir quais são os outros smurfs do grupo, o Habilidoso, o Fominha, o Vaidoso... A torcida bicolor só espera que ninguém faça o papel de Smurfete e jogue de salto alto ou então que o Ranzinza Luiz Omar não apronte das suas mais uma vez e atrapalhe essa volta à vila escondida que é a Série B. Tão escondida que há cinco anos o Paysandu pena para achar o caminho de volta.

Texto do caderno Bola, do Diário do Pará, publicado em 09 de agosto de 2011.

Perdidos?

Inferno, purgatório e paraíso. Três palavras que simbolizam uma jornada épica, espiritual, que levam a um embate entre a fé e a razão. Alguns escolhem se aventurar por esse caminho longo e tortuoso; outros são levados involuntariamente a ele. Mas, ao final, motivos, sofrimentos, não importam. O fundamental é encontrar a redenção. Algumas respostas sempre vão faltar, mas a vida é isso: aceite o mistério. É assim, como se “A Divina Comédia”, de Dante, ecoasse em nossas cabeças, que “Lost”, uma das séries de maior sucesso da história da televisão mundial, chega ao fim, com a exibição do último episódio hoje no Brasil.
O que é a ilha? Qual a essência do monstro da fumaça? Por que aqueles personagens foram escolhidos para estar ali? São muitas perguntas que escondem o fato de que estar “perdido”, na verdade, pode não ser tão ruim. Afinal, todos nós, em dado momento, ficamos assim, em busca de um rumo. Até mesmo os clubes de futebol. Quem sabe se num universo paralelo, o Clube do Remo não poderia assumir o papel de protagonista dessa história?
Como num clarão eletromagnético que vez por outra cai sobre a ilha (agora travestida de Belém), voltamos ao ano de 2005. Vemos a torcida azulina ter seu último instante de glória, uma esperança para dias melhores. O título da Série C poderia ser um novo e revigorante começo. Mas ali, começaram as escolhas erradas que levariam o clube ao fundo do poço. Dá vontade de avisar, mas não podemos mudar o passado. Os paradoxos temporais seriam catastróficos. Resultado: passado algum tempo, o time ficou sem competição nacional a disputar, perambulando como um fantasma pelo interior do Estado. E o que é pior, um mero coadjuvante no cenário local.
Um homem, talvez, ainda possa mudar essa história. Ele foi chamado de salvador em 2006 por ter conseguido evitar temporariamente um desastre. Ali, identificou os problemas que afligiam o clube, mas não lhe foi permitido continuar seu trabalho. Resultado, o Remo retomou o caminho ladeira abaixo. Mas, assim como a ilha não permite que os personagens cruciais fiquem fora, se desviem de seu foco, Giba voltou ao clube. É o que ele deve fazer: reerguer o clube. Esse é o seu trabalho. O Remo ainda reserva uma tarefa a ele.
Por que da primeira vez não deu certo? Assim como Jack, em “Lost”, Giba precisava fazer sua escolha. Em 2006, ele havia sido contratado do nada, foi colocado no meio daquele pandemônio, uma bagunça generalizada que ele tentou consertar. Saiu e, anos depois, voltou. Agora diz que quer ficar, apesar do recente insucesso. Mostrou calma, serenidade, entende a situação. Boa sorte a ele, que terá muitos percalços nessa jornada, afinal, os monstros da fumaça estão por todos os lugares no Baenão, frutos do egoísmo e da ganância, tentando apagar a luz que brilha no coração de cada azulino.
Se ele vai conseguir é outra história. Talvez até passe o bastão para um novo líder, um novo protetor. E é claro que isso vai acontecer. Se não agora, mais adiante. É o ciclo da vida, ninguém pode impedir. Mas, até lá, o importante é que ele cumpra sua missão e deixe o caminho pavimentado para que o clube saia fortalecido, consiga deixar o limbo e encontrar o paraíso. E se você, leitor, acha que esse texto não tem lógica, você tem razão. É uma simples brincadeira. Mas é também, pelo menos para o torcedor do Remo, uma questão de fé.

Meu texto publicado no caderno Bola, do Diário do Pará, em 25 de maio de 2010, comparando Lost e o Remo. O técnico caiu, não cumpriu sua missão e o clube continua no limbo.

Prazeres culpados

Todo mundo tem, não adianta negar. Podemos até tentar encontrar argumentos pra justificar, mas não vamos conseguir nem para nós mesmos. O jeito, então, é relaxar e curtir. Estou falando dos prazeres culpados do cinema. Daqueles filmes que são ruins de doer, mas que nos deixam vidrados na tela. Perdi as contas de quantas vezes escutei uma pessoa falar: “credo, esse filme de novo?”. Mas está lá, ligada. Sempre.
Acontece. Às vezes, é um detalhe que faz a diferença. O filme pode ser péssimo, ter um roteiro esburacado, atuações canastras (claro, aqui não entram os trashs, esses são assim por natureza), mas, se tem aquela música que você adora ou aquela piadinha infame que faz você gargalhar enquanto todo mundo na sala continua sério, com cara de dor de barriga, pronto. A magia do cinema está completa.
Tenho vários prazeres culpados. Admito isso sem vergonha alguma (ninguém deve ter). Vergonha seria se me limitasse a eles. Como não corro esse risco, só tenho a aproveitar. Mas uma dica: não queira impor aos outros a sua predileção. É um tiro no pé. Se começarem a falar mal do seu filme, você não terá nem como rebater, a não ser com a memória afetiva, que, nesses casos, é o mesmo que nada. Então, para evitar brigas, carregue sua culpa com você, não divida.
Levar na esportiva é o mais importante. E para demonstrar isso vou ter que me expor e revelar pelo menos um dos meus pecados cinematográficos. Não sem antes lembrá-los de que, nessa seara, todos têm telhado de vidro, portanto, nada de julgamentos. O filme em questão é reprisado uma quantidade absurda de vezes na TV por assinatura. E são raras as que eu não estaciono ali. Paro de zapear na hora: Mamma Mia!, com Meryl Streep.
Conta a história de uma garota que vai casar, mas antes quer conhecer seu pai. Acha então o diário da sua mãe e convida três possíveis “pais” para visitá-la, sendo que a narrativa é totalmente pontuada pelas músicas do Abba. Não vou explicar porque gosto do filme (batalha inglória). Simplesmente gosto. Aceitem. Mas o ponto onde quero chegar é o seguinte: pessoas cuja opinião eu respeito detonaram o musical. E o Pablo Villaça (não é parente), do Cinema em Cena, fez isso com uma criatividade espantosa, no que eu considero uma de suas melhores críticas (leia aqui: http://bit.ly/vlRXe).
Eu concordo com tudo que o Pablo escreveu, mas vou continuar vendo e me deliciando com o filme. Paciência. Não importa se “A Julie Walters aqui é uma tortura / E Colin Firth, na caricatura... / O Pierce Brosnan... / Quando canta parece que rosna!”. Pelo menos ele livrou a cara da Meryl Streep, até porque é muito difícil criticar uma atuação da atriz. Enfim, minha lista é interminável, mas não vou dividi-la com vocês. Seria um prazer pra mim, mas uma tortura para muitos. Só espero que sempre tenham essa consideração comigo também.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Os limites do grotesco

A Serbian Film, de Srđan Spasojević, que teve sua cópia apreendida no Brasil, não merece tanto falatório. É uma produção feita para chocar, dentro dos padrões do cinema de horror extremista, que vai além do estilo torture porn. Porém, é caricata e com uma história frágil, que não se sustenta sem a violência explícita. Censurá-la só faz aumentar o interesse do público, que não depende mais da exibição nas salas de cinema para assistir a filmes do tipo. A internet está aí para isso. O que fica é a privação dos nossos direitos de ver e julgar a obra. Censura pura e abjeta.
Goste-se ou não, A Serbian Film se enquadra em uma temática cinematográfica. O japonês Takashi Miike, por ser o mais conhecido, talvez seja o melhor modelo de comparação. Ele também sofreu com proibições à sua obra em alguns países, mas é reconhecido e venerado pelo público e pela crítica. Não é para menos. Sua obra tem unidade, subverte a linguagem do cinema, lida com dramas humanos e apenas exagera na composição dos quadros retratados, carrega nas tintas, beirando, mas não chegando ao non sense. É uma linha tênue e que foi ultrapassada por Spasojević.
A Serbian Film pretende mostrar a inversão (ou perda total) dos valores no país do leste europeu após a guerra civil. Isso é mostrado pela ótica de um ator de filmes pornôs aposentado, Milos. Ele é contratado para voltar à ativa mediante um pagamento exorbitante, com uma ressalva: não pode saber antecipadamente como serão as filmagens. Assim, ele descobre apenas na hora que elas envolvem espancamento, necrofilia e pedofilia. A gota d’água foi um vídeo mostrado pelo diretor de um novo gênero, o “newborn porn”, pornô com recém-nascidos.
Milos tem uma reação esperada: deixa a sala ultrajado. E é aí que o filme tem seu único momento de força, mas, paradoxalmente, perde público. O personagem é dopado com afrodisíaco para gado e estimulado a cometer as maiores atrocidades. Mas isso é mostrado através de fitas de vídeo, descobertas mais tarde por Milos, pois este acordou em sua cama, ensanguentado, sem lembrar do que aconteceu nos últimos três dias. Esse recurso, do filme dentro do filme, nos faz compartilhar com Milos os seus atos e nos coloca na posição de voyeur, cúmplices. Causa estranheza e desconforto.
Ponto para o cinema por despertar essa reação. O objetivo era esse mesmo. O problema é um só: muita violência – mesmo estilizada – para pouca história. Soa forçado. Tudo bem que o naturalismo não era o efeito pretendido, mas era de se esperar o mínimo de coerência na linha narrativa. Onde mora todo aquele drama visto na tela? Passamos o filme todo sem saber, com uma sensação de muito barulho por nada. No clímax, a fala “Eis uma grande e feliz família sérvia”, dita ironicamente, escancara o tema do filme e o que fica em evidência é a fragilidade do roteiro, que confessou a sua inabilidade. Duvidou da sua própria capacidade e deu tudo mastigado para o espectador.
Há ainda quem diga que é tudo uma grande piada, que a idéia era mesmo ser engraçado. Humor negro, diga-se. Que seja, mas, para mim, não funcionou. Enfim, A Serbian Film é, como cinema, abaixo da média, mas deve ganhar status de cult por conta dessa proibição. Uma pena, não merece tanto. De todo modo, o filme pode e deve ser discutido como arte. Censurado, nunca. Não vi incitação à pedofilia, ao contrário, ela é rejeitada pelo personagem principal. Quem o censurou não deve ter visto ou não entendeu o filme. O que torna o ato ainda mais repugnante do que as próprias cenas do filme.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mestres

Vincent Price e Christopher Lee. Dois mestres do horror. Só a expressão séria de ambos já provoca calafrios. Um tem uma gargalhada sinistra. O outro, um olhar assassino. Eles se completam. Quis o destino que fizessem aniversário na mesma data, dia 27 de maio, há exatamente uma semana. Provavelmente, era uma noite de lua cheia, com o uivo de lobos como trilha de fundo. Este seria o cenário perfeito, resumiria bem o que viriam a ser suas existências. E se não foi assim, quem liga? O que seria do mundo sem um pouco de ficção?
Price completaria 100 anos de idade se estivesse vivo. Ele passeou por vários gêneros, mas foi no cinema fantástico que seu trabalho ganhou mais destaque. Uma galeria de personagens excêntricos, atormentados, insanos... Ele tinha o dom de assustar. Nas telas, seus modos de lorde escondiam uma natureza maquiavélica e o perigo sempre rondava quem dele se aproximava. Quando a sua expressão sombria surgia, dissipando a névoa, o cheiro de morte podia ser sentido.
Exceção à regra, Price recebeu diversas homenagens ainda em vida. Além de prêmios, todos voltados para o terror e a fantasia, obras no cinema. Só Tim Burton o presenteou – e aos fãs também, claro – com duas produções: um curta-metragem divertidíssimo, “Vincent”, sobre um menino que gostaria de ser Vincent Price; e uma deliciosa participação em “Edward – Mãos de Tesoura”, como o “pai” do protagonista, um cientista louco (seu último trabalho).
Apesar de Price contar com uma filmografia extensa e de qualidade, não me furto em apontar meus favoritos: “O abominável doutor Phibes”, “Museu de Cera”, “A casa dos maus espíritos” e “O túmulo sinistro”. Incluo aqui também uma participação memorável do ator em um episódio do Muppett Show. É impressionante com ele incorporava o estereótipo do ator de filmes de terror, uma autoparódia sensacional. Só posso dizer que Caco, Pig e companhia passaram por maus bocados.
Já Christopher Lee está mais ativo do que nunca, envolvido em diversas produções. De uns tempos pra cá, ele, que em minha opinião foi a encarnação mais assustadora do Conde Drácula, foi redescoberto por cineastas que passaram a adolescência vendo os seus filmes. Tornou-se cult. Tem Star Wars e O Senhor dos Anéis no currículo. Antes, foi até vilão em James Bond – um dos melhores, diga-se de passagem. Ano que vem, completa 90 anos. Vida longa a ele.
No dia 27, para celebrar a data, assisti “O ataúde do morto-vivo”, em que ambos atuam. Vê-los juntos em cena é algo sublime. O filme emana uma aura de puro terror. É um bom começo para quem deseja se iniciar na vasta obra desses mestres. Lembrando que conhecê-los é uma obrigação para quem ama o cinema. Caso contrário, do mesmo modo que “Vincent”, citando Edgar Allan Poe, você estará destinado às trevas: “... E a minha alma para fora dessa sombra que flutua sobre o chão não se levantará nunca mais”.


Tributo a Vincent Price




Vincent (Curta de Tim Burton, narrado pelo próprio Price)



Cenas de Lee como Drácula

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Bite me

Quando o apocalipse zumbi acontecer e os mortos começarem a levantar de suas covas, com uma fome insaciável de carne humana, esqueça os valentões, os caras populares do colégio, eles não servirão pra nada. Você vai precisar de especialistas no assunto. Nada melhor, portanto, do que três amigos nerds, viciados em games, que passam o dia matando zumbis virtualmente. Eles sabem as regras e estão doidos para finalmente mostrar o seu valor para o mundo, mesmo que este esteja prestes a sucumbir.
Essa é a premissa da websérie “Bite me”, que já teve a sua primeira temporada concluída. São cinco episódios (média de 10 minutos cada um), que você pode acompanhar abaixo. Como os protagonistas mesmo falam, não interessa como a história começou. O importante é a criatividade no desenrolar dos fatos. Os pontos de vista apresentados. Então não é difícil entender porque a série caiu no gosto da galera. Enquanto vários filmes de zumbis baseados em vídeo games não dão nem pra saída, “Bite me” aposta na simplicidade do tema e “gráficos” excepcionais para divertir bastante, seja você “jogador-espectador” iniciante ou experiente.
Com muitas citações aos clássicos deste subgênero do terror e até uma discussão sobre quais filmes são, de fato, de zumbis, a série é obrigatória para quem curte um morto-vivo, seja nos games ou nos cinemas. No mais puro horror ou, como é o caso, com pitadas de comédia, num afiado humor negro. Tomara que a 2ª temporada não demore a sair...









O Elo Perdido

Sempre que ia à locadora, olhava para ele. Pegava, lia a contracapa. E nada. O deixava no mesmo lugar. O Rodrigo, meu amigo aqui do jornal, me ofereceu incontáveis vezes o arquivo que ele baixou da internet. Recusei cada uma delas. Muito medo. Era tão perfeito na minha memória, pra quê arriscar? Mas, ele não desistiu e me encontrou. Um belo dia – ou melhor, madrugada –, zapeando na TV por assinatura, eis que ia começar a exibição de “O Elo Perdido”, filme baseado na antiga série de televisão dos anos 70, que tanto assisti nas reprises da TVS (hoje SBT). Tomei, então, a decisão. Encarei o filme.
Ah se eu pudesse encontrar uma fenda dimensional, que me fizesse voltar no tempo. Não como a que a família Marshall se deparou no terremoto enquanto desciam a cachoeira. Não, não precisava ir tão longe, lá no tempo dos dinossauros. Cinco minutos antes de me acomodar no sofá bastavam. Desligava a TV, ia dormir e pronto. Me poupava uma boa dose de estresse. Isso é que dá não confiar nos meus instintos. Um filme que tem Will Ferrell como protagonista não pode dar certo. O cara até funciona em pontas, pequenas participações, mas à frente de um projeto sempre naufragou.
Veja bem, não é que o filme seja ruim. Ele é pavoroso. Esqueceram a ficção científica e fizeram uma comédia. E o pior, uma comédia que não faz rir. Ao contrário, é insultante, de mau gosto, com momentos de pura escatologia. O que dizer de um Cha-ka e Will Marshall se drogando, com direito a insinuações sexuais? E o dinossauro evacuando o personagem de Ferrel? Beira o ridículo. Sério mesmo que os roteiristas acharam que isso era engraçado?
A série era tosca, com limitação de cenários, figurinos, efeitos especiais que estavam mais para defeitos... Mas tinha conceitos interessantes, roteiros elaborados, criativos (pelo menos na primeira e segunda temporada) e, sobretudo, carisma. Era impossível não se envolver com a história, com a luta pela sobrevivência de uma família em uma terra pré-histórica. Além disso, o trabalho era sério. Foi criado até um alfabeto, com certa quantidade de palavras para os Pakuni, a raça de Cha-ka. Em resumo, a série tinha algo que o filme não mostrou em momento algum: dignidade.
No mais, era uma senhora diversão ver o T-Rex em stop-motion correr atrás dos personagens em todos os episódios até eles chegarem à caverna. E também tinha a abertura. Simplesmente sensacional. Até hoje não vi uma melhor em séries de ficção (veja abaixo). Lembro que corria para frente da TV toda vez que ouvia: “Marshall, Will and Holly, on the routine expedition...”. “O Elo Perdido” é, portanto, um exemplo de que grandes orçamentos não significam nada. Gastaram rios de dinheiro para fazer um filme bisonho, enquanto que uma série de poucos recursos até hoje, quarenta anos depois de seu lançamento, é lembrada com carinho pelos fãs.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Prepare-se para o pior

O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos publicou uma campanha sobre como sobreviver a um apocalipse Zumbi. O texto indica ações para se proteger, inclusive com um Kit de Sobrevivência. Além disso, qualquer pessoa pode baixar os selos de informação da campanha.

Se os EUA já estão se preparando, é porque alguma coisa pode acontecer. Prepare-se você também!

O link da campanha é: http://emergency.cdc.gov/socialmedia/zombies.asp

Get A Kit,    Make A Plan, Be Prepared. emergency.cdc.gov

If you're    ready for a zombie apocalypse, then you're ready for any emergency.    emergency.cdc.gov

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Shit my dad says

Para um cara que já explorou os mais diversos mundos, pesquisou novas vidas e civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve, lidar com os filhos seria uma situação totalmente banal e tranquila, certo? Errado. Qualquer relacionamento familiar é bem mais complicado do que encarar um monstro alienígena por aí. E o Capitão Kirk, ops... William Shatner, sente na pele todas as agruras – mas também as delícias – de ter os seus pimpolhos já crescidos de volta para baixo de sua asa na série $#*! my dad says.
Tudo começou com um perfil criado pelo norte-americano Justin Halpern no Twitter sobre as pérolas soltadas diariamente por seu pai, devidamente anotadas depois que Justin perdeu o emprego e foi pedir arrego ao seu velho. Com 2.205.814 seguidores, o sucesso do perfil chamou a atenção e o convite para transformar essas tuitadas em livro não tardou. Resultado: um best-seller. Nesse ponto, o caminho para a televisão foi até natural. Só faltava o nome certo para encabeçar a produção. Quando William Shatner disse sim, estava tudo resolvido.
Vocês lembram de toda a canastrice do ator em Jornada nas Estrelas? O humor involuntário que muitas vezes tomava conta das cenas? Pois é, em $#*! my dad says Shatner pode usar à vontade todo o seu repertório, é permitido e aconselhável. As gargalhadas são garantidas. E até nos momentos mais ternos, meigos, essa composição ajuda na veracidade, já que o seu personagem, Ed Goodson, é um sujeito bronco, que só gosta das coisas do seu jeito e tem dificuldade para compreender a necessidade de afeto e carinho dos filhos. Assim, é legal vê-lo tentando se comunicar, a sua falta de habilidade, de tato, na hora de transmitir emoções.
Politicamente incorreta, a série pode ser considerada um oásis atualmente. Afinal, a patrulha está forte. Não pode fumar, beber, violência... Vemos um mundo cor de rosa na tela da TV. Qualquer comentário sobre alguma minoria, por exemplo, mesmo que não seja ofensivo, já é motivo para censura. E, cá pra nós, 90% dessa patrulha é formada por hipócritas, que defendem uma causa, mas pensam exatamente o contrário. $#*! my dad says fala abertamente sobre gays, tem confronto entre feminismo x machismo, tudo numa boa, sem estresse. Não há motivo para ter medo, são assuntos naturais, estão no dia a dia. Tem piadinhas? Claro, mas nada que ofenda. Apenas mostra o que, de fato, acontece nas ruas.
A série já garantiu uma segunda temporada por conta dos bons índices de audiência, refletidos na conquista do People’s Choice Awards nos EUA. Aos oitenta anos, William Shatner mostra que está em forma. Não aparenta a idade que tem. Comanda as ações com o mesmo pulso firme que comandava a Enterprise. É um ator com um carisma impressionante. Não precisa sequer se reiventar. Se continuar desse jeito, essa sua nova “missão” ainda vai durar uns bons anos.

Escrevi esse texto mês passado no Por Aí, do Diário do Pará. O último parágrafo deve ser desconsiderado, pois contrariando todas as expectativas a série foi cancelada. Enquanto isso, um monte de porcaria continua no ar...

Se quiser baixar a primeira temporada, você encontra os links nesse site: http://www.baixartv.com/download/shit-my-dad-says/

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Mangue Negro

“Adoro o cheiro de cérebros e tripas pela manhã...”. Se o coronel Kilgore, de Apocalypse Now, fosse um zumbi, a frase mais famosa do cinema seria essa. Como ele era um cara normal (ah, entendeu, né?), foi o napalm que entrou para a história. Mesmo assim, quem curte uma boa trama de mortos-vivos, pode usá-la sem contra-indicação. Afinal, em um gênero que produz anualmente uma quantidade considerável de filmes, encontrar aqueles que são realmente criativos é uma raridade. Fica no ar um cheiro de novidade que, no caso de Mangue Negro, é o odor fétido da decomposição dos corpos.
Embora o filme, produzido no Espírito Santo, seja de 2009, ainda não tinha ouvido falar dele. Em uma das minhas madrugadas insones, achei-o na internet para download. Uma rápida pesquisa e soube que ele percorreu alguns festivais de cinema fantástico no Sul e Sudeste do país, onde obteve um sucesso considerável. Resolvi conferir e não me decepcionei. É um belo exemplar de terror trash, na mesma linha de clássicos como Evil Dead e Fome Animal.
O que mais me chamou a atenção em Mangue Negro – além do fato de alguém se aventurar no cinema de gênero no Brasil, principalmente o terror, tão renegado – foi a preocupação em não cair na mesmice, de apenas imitar o estilo consagrado por George Romero. Zumbis nós temos aos montes, em todas as mídias. Eles estão na moda e não é de hoje. Então, o que o diretor capixaba Rodrigo Aragão fez foi inserir elementos da cultura brasileira nesse universo, criando uma identificação do espectador com a obra. Afinal, sempre soubemos que a contaminação era em escala mundial, mas nunca vemos isso na tela.
Assim, quando surge uma preta velha, destilando sua sabedoria, sabemos que a coisa é pra valer. Fora as crendices populares, como, por exemplo, usar o veneno do baiacu para salvar a mocinha de um destino nefasto. Ah, e claro que não podemos esquecer do pano de fundo que, seguindo a cartilha de mestre Romero, traz uma crítica social – no caso, tendo a ecologia como tema. É uma justificativa até bem interessante para o levante dos mortos, que geralmente ninguém sabe como começou. Na podridão dos manguezais do Espírito Santo, a vida tornou-se rara com a destruição dos sistemas ecológicos. Dali, só poderia sair mesmo a morte.
No mais, tem que ser ressaltado o trabalho de maquiagem, feito pelo próprio Aragão. Os zumbis ficaram assustadores, nojentos... O diretor também criou alguns animatrônicos, esses bem toscos. Mas como a ideia era passar uma sensação de decrepitude, o resultado não destoou. O amadorismo dos atores também ajudou na composição do clima realista do filme. Tá certo que, às vezes, dá uma agonia a falta de recursos do mocinho, uma espécie de Ash à brasileira, mas ele consegue funcionar. Outro aspecto que incomoda é o excesso de fades. O diretor poderia ter variado mais.
Mas nada que tire muitos pontos do filme. O fato é que o cinema brasileiro precisa de mais novidades do tipo. E Mangue Negro mostrou que não é difícil. Bastaram, no caso, 50 mil reais e um punhado de criatividade.